Manuel Silva
A direita política e económica não é liberal

É habitual dizer-se não existir em Portugal uma tradição liberal. Tal não corresponde totalmente à verdade. Há mais de quarenta anos que vivemos numa democracia liberal. No entanto, na nossa História sempre houve também uma tradição autoritária, como se viu no período do absolutismo, no final da monarquia, na I República e no regime salazarista.
Do ponto de vista económico, o liberalismo existe, sim, mas no que tem de mais negativo: procurar tornar a saúde e a educação em negócios, em nome de uma falsa igualdade de oportunidades, desvirtuar gradualmente o Estado Social, privatizar empresas públicas rentáveis enquanto se nacionalizam os prejuízos, como se pode verificar com as PPP. Quanto à venda da EDP e da REN, não se trata propriamente de privatizações, mas da sua aquisição por uma empresa propriedade do Estado totalitário chinês. A REN, fundamental para a segurança nacional, está nas mãos dos herdeiros – e alguns autores – do massacre de jovens em Tian An Men, há 27 anos.
O neo-PSD, como o qualifica o seu militante Pacheco Pereira, é liberal naqueles aspectos, no abandono dos mais desfavorecidos à sua sorte, na aplicação de legislação laboral cada vez mais lesiva dos trabalhadores, no agravamento das desigualdades sociais e na defesa do crescimento económico assente em baixos salários, uma das consequências da sacrossanta globalização que, como dizia Vitor Cunha Rego, há mais de duas décadas, foi feita para beneficiar quinhentas multinacionais. Contrariamente às teorias económicas liberais, aumentou os impostos, prejudicando o investimento e, tal como o PS e o CDS, manteve, no poder, uma ligação íntima entre Estado e negócios enquanto falava de “libertação da sociedade civil”. A governação entre 2011 e 2015 comprova-o.
A direita económica portuguesa tem no PSD, que já foi um partido inter-classista, central e reformista, o seu porta-voz e defensor.
Com o fim do absolutismo, na primeira metade do século XIX e a vitória do liberalismo, pela primeira vez Portugal conheceu um regime democrático. Na economia não havia liberalismo, mas proteccionismo económico do Estado, que conduziu à corrupção, um dos factores na origem da queda da monarquia.
A I República, descontando alguns períodos, não foi uma democracia, mas uma balbúrdia onde se verificaram abusos e perseguições de toda a espécie.
Salazar não era liberal na política, nem na economia. O alto capitalismo daquele tempo sempre sobreviveu à sombra do proteccionismo estatal.
Após o 25 de Abril, finda a época revolucionária e com a realização da revisão constitucional de 1989, começaram as privatizações. No entanto, nunca existiu nem existe uma sociedade civil forte. Os empresários portugueses continuaram encostados ao aconchego do Estado e, em grande parte, subsidiodependentes. A propósito, com tanto dinheiro que veio da CEE e da UE, como foi possível chegarmos à bancarrota? Para onde foi grande parte desse dinheiro?
A circulação entre o poder, empresas e bancos que têm negócios com os governos é frequente entre os políticos e governantes portugueses, o que se comprova, entre outros casos, com as entradas de Jorge Coelho e de Paulo Portas para a Mota Engil ou de Leonor Beleza para a CGD.
Consequência ou não deste condicionalismo, a maioria das empresas estão descapitalizadas, os bancos, incluindo a CGD, vivem a situação conhecida, não podendo financiar o investimento. A economia só pode crescer, criar riqueza e prosperidade com captação de investimento estrangeiro. Neste quadro, é muito difícil manter os centros de decisão em Portugal.
O actual governo não mostra capacidade de atracção daquele investimento. Se não conseguir ganhar a confiança de agentes económicos estrangeiros, mantendo-se a economia estagnada, com as resultantes consequências sociais e financeiras, a chamada geringonça falhará e dificilmente voltará a ser possível a existência de um governo suportado por uma maioria de esquerda em Portugal.
Fernando Filipe Nunes
Faleceu o Sr. Fernando Filipe Nunes, que contava 92 anos de idade. Foi durante muitos anos a “alma” da “Gazeta da Beira”. Desapareceu mais uma das mais destacadas figuras do jornalismo local.
Foi um prazer ter sido amigo e colega do Sr. Filipe Nunes neste jornal. Consigo aprendi muito, sobretudo com a sua experiência de vida em três continentes.
Às suas filhas, netos e demais familiares, apresento votos de condolências.
Até um dia, Sr. Filipe Nunes. Descanse em paz.Redação Gazeta da Beira
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