Ano Novo: “tempo novo”, novo tempo?
João Fraga de Oliveira
Bom Ano Novo!
É o que nos fartamos (realmente, não…) de, por esta altura, ouvir (e retribuir). Aliás, verdadeiramente, por esta ou aquela razão, quando se aproxima o Outono, logo se começa a ouvir falar do “fim-do-ano” e, por inerência, do “Ano Novo”.
Para além das promessas de “nova(s) vidas(s)”, que quase sempre ficam muito por cumprir (fazer dieta, mais exercício, poupar mais, etc.), no “Ano Novo”, há quem diga que “dá sorte” estriar uma peça de roupa nova, por exemplo, umas calças novas, umas “jeans” novas.
E este ano, a partir do 4º trimestre (desculpem a linguagem do INE…), politicamente, começou a ouvir-se falar já não só do “ano” mas do “tempo”, do “tempo novo”.
“Ano Novo”, “tempo novo”, “jeans” novas.
Quanto ao Ano Novo, já sabemos, é novo mas é sempre do mesmo “modelo” (com uma ligeira variação quadrianual de um dia, como neste ano, bissexto, de 2016). Ou seja, é (quase) o “mesmo” ano, só que já não é (o) “velho”. É o “mesmo” ano, do mesmo “modelo”, se bem que novo. É um “Ano Novo” mas nada garante que seja um novo ano.
O mesmo acontece com as “jeans”. Não obstante serem novas, também são do mesmo modelo e tecido. São as “mesmas” velhas calças “jeans” de que gostamos. São mais umas outras calças a “estriar”, novas, novinhas “em folha” sim, mas não são umas novas calças.
E quanto ao “tempo novo”? Incógnita. O conceito é politicamente peregrino. Será que é apenas mais um “tempo”, sim senhor(a) “novo” mas, no essencial, (mais ou menos) do mesmo “modelo” e com o mesmo “tecido” do “tempo velho”? Ou será que, como se espera (vota…), é (vai ser) mesmo não só um “tempo novo” mas, clara, decidida e assumidamente, um novo tempo?
A pertinência destas últimas perguntas tem a ver, afinal, com um outro conceito que, de algum modo, das suas respostas depende. E que, como sabemos, não é nenhuma novidade, se bem que (ainda) só do ponto de vista : o conceito de “Homem Novo”.
E aqui já não é sequer possível ponderar a hipótese de um homem novo no mesmo sentido, meramente físico (felizmente, a clonagem humana é será sempre uma ficção…), do ano (“novo”) e das calças (novas, “a estriar”).
Daí que, quanto ao “Homem Novo”, “apenas” é pertinente a hipótese que pondera o ponto de vista dos valores, dos direitos e das responsabilidades, das ideias e das práticas, da economia, da sociedade e, necessariamente, da Política, em síntese, a hipótese de, nisto, termos (sermos), humana, social e politicamente, um novo Homem.
Tudo isto para voltar ao “tempo novo” e para concluir que não basta proclamar-se um “tempo novo”. É indispensável fazer-se (propor-se, exigir-se, contribuir-se, participar-se, governar-se…), efectivamente, (para) um novo tempo.
É que, afinal, “tempo” é um conceito meramente abstracto se não for entendido como sendo o que se faz (ou faz fazer, ou ajuda-se a fazer, ou faz-se com outros…) com ele, com o tempo.
Por isso, para dar sentido ao voto inicial de bom Ano Novo! (ou, melhor, bom Novo Ano!), o meu voto final é o de bom “tempo novo”!
Ou, melhor, tendo em conta o que precede, bom novo tempo!
Redação Gazeta da Beira
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