Manuel Silva
PAF obtem vitória amarga
PAF OBTEM VITÓRIA AMARGA
No sufrágio eleitoral do passado dia 4 de Outubro aconteceu o que parecia improvável até há pouco tempo, a vitória da coligação PAF (PSD e CDS), como previam as sondagens divulgadas durante a campanha.
A vitória de Passos Coelho e Paulo Portas tem, no entanto, um sabor amargo. Os seus partidos perderam a maioria absoluta e obtiveram menos 12% de votos que nas eleições de 2011. A esquerda estará em clara maioria no parlamento agora eleito. Mais de 60% dos votantes repudiou a política de austeridade e empobrecimento seguida pelo governo e os partidos que o suportaram durante os últimos
4 anos.
PSD e CDS têm apoio minoritário na AR e no país. Será bom que tenham esse facto em conta na busca de acordos a celebrar com o PS.
A coligação no poder escondeu durante a campanha eleitoral as siglas e as designações dos partidos seus constituintes, contrariamente aos demais partidos não elaborou cartazes com as fotografias dos seus líderes. Para cúmulo, não apresentou qualquer programa, limitando-se a discutir o programa socialista, o que demonstra ter consciência da impopularidade de Passos, Portas e dos partidos liderados pelos mesmos, bem como querer prosseguir a nefasta política dos últimos 4 anos, provocando ainda mais danos nos planos económico e social.
É pena ter ganho tão mal. Desiludam-se os verdadeiros sociais-democratas e democratas-cristãos que militam ou simpatizam com o PSD e o CDS. De vez, os mesmos abandonaram as suas matrizes originais, integrando-se plenamente na direita radical e sem sensibilidade social, à semelhança da generalidade dos seus companheiros do Partido Popular Europeu (PPE).
O PS e António Costa foram os grandes perdedores. Após as eleições para o Parlamento Europeu realizadas em Maio de 2014, as bases do PS afastaram António José Seguro da sua liderança porque tinha ganho por pouco. Elegeram António Costa, pensando conseguir uma vaga de fundo que conduziria os socialistas à maioria absoluta. O resultado foi uma pesada derrota.
Em 2011, o eleitorado penalizou severamente Sócrates e o PS.
Apesar da política impopular e anti-popular da última legislatura, este partido cresceu apenas 4,5%, ficando a mais de 6% da coligação vencedora.
Para este resultado dos socialistas terá contribuído a prisão preventiva de José Sócrates por supostos crimes gravíssimos praticados no exercício de funções, as contradições verificadas na sua campanha, a má gestão das presidenciais, que levou ao aparecimento de mais de uma candidatura na sua área, conduzindo a direcção do PS a não apoiar qualquer candidato na primeira volta daquelas eleições, dando liberdade de voto aos seus aderentes, ou os cartazes onde apareciam pessoas empregadas como se fossem desempregadas e sem autorização delas para serem fotografadas.
Mas a razão principal para a derrota do PS foi apresentar um programa pouco diferente da prática do PSD e do CDS, porque também subordinado ao colete de forças imposto pelas instituições europeias e a imperatriz Angela Merkel, a chamada TINA (there is no alternative, não há alternativa). É essa a razão por que os partidos socialistas europeus coleccionam derrotas umas atrás das outras.
Se nos acordos que fizer com o PSD e o CDS o PS não se bater por políticas mais sociais, no futuro terá derrotas ainda maiores.
Os partidos à esquerda do PS, no seu conjunto, obtiveram uma considerável votação. A CDU e o BE somam 18,5% de votos, que acrescentados aos pequenos partidos da esquerda extra-parlamentar totalizam cerca de 22%. É cada vez maior o número de pessoas a votar nos partidos opositores da TINA. Nestas eleições foi superior a um milhão, contabilizando também os resultados dos partidos de direita e de centro discordantes do federalismo, da sujeição a Bruxelas e muito especialmente a Berlim.
O BE teve um óptimo resultado. Apesar das cisões que teve nos últimos anos, aumentou a votação para mais do dobro. O carisma e a capacidade de exposição de Catarina Martins, bem como o excelente trabalho feito pelos seus deputados, com destaque para Mariana Mortágua, na AR, estão, em boa parte, na origem daquela votação.
A CDU ficou aquém do esperado. No entanto, elegeu mais um deputado, continuando a manter uma considerável base social de apoio, maior que a do BE.
Também o PAN elegeu um deputado. Há muitos anos que tal não acontecia com um pequeno partido, fundado há poucos anos.
A abstenção foi de 43%, ou seja, não andou longe de metade o número de eleitores que não votaram. Tal demonstra a sua desilusão e repúdio pela classe política actual.Redação Gazeta da Beira
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