Aquela Moura

Ana Raquel Macedo; Laura Costa; Matilde Macedo; Melanie Fernandes

Reza a lenda que, certo dia, uma linda moura, Carlota, enquanto se penteava, deixou cair nas margens do Rio Vouga o seu pente de prata, herdado de gerações antigas. Receosa de não o voltar a encontrar, debruça-se sobre o leito do rio, na esperança de o agarrar. Ao fazê-lo, observa o seu esbelto reflexo, ficando perplexa com o que vê. Dizia, então, para todos, que se ia ver no Vouga.

Acharam a ideia absurda e, até mesmo, ridícula. Porém, como o passar do tempo, a curiosidade falou mais alto e, subitamente, já todo o local afluía ao rio. Todos diziam que se iam ver no Vouga.

Carlota encontrava-se apenas de passagem naquele local, mas o amor pelo território contagiou, de tal forma, a sua alma, que esta decidiu lá ficar, tendo a oportunidade de descobrir o contemplar novos recantos.

Já se contavam os dias para a atribuição da carta de foral, iria ser concedida por D. Manuel I à população. A população estava empolgada e ansiosa pelo grande evento, finalmente iriam adquirir a tão desejada liberdade concelhia. Os cavaleiros limpavam os seus cavalos, penteando as suas crinas e escovando o seu pelo; algumas mulheres preparavam as suas hortas e jardins; outras decoravam todo o espaço e até havia quem já escolhesse o seu traje. Os alfaiates andavam muito atarefados com tanta procura. Inúmeras lembranças eram recolhidas para entregar aos funcionários régios. Tudo se estava a compor e a grande festa estava quase pronta…

Finalmente chegou o grande dia. As ruas estavam cheias de pessoas que aguardavam o tão esperado momento.

Carlota penteava os seus delicados fios de ouro, infelizmente sem o seu estimado pente e, quando os sinos tocaram as treze badaladas, apressou-se a sair, com medo de chegar atrasada e perder a atribuição do foral. Pelo caminho, depara-se com um gentil cavalheiro, que reconhecendo a sua beleza, lhe diz:

– Vai à atribuição da carta de Foral?

Nunca esperando tal pergunta, responde:

– Sim e o senhor?

– Também. Importa-se que a acompanhe?

– Ora essa, vamos para o mesmo sítio…

E continuaram o percurso.

– Então, como se chama? – Perguntou ele.

– Carlota!

– Que nome divino… chamo-me Afonso, venho de Cedrim e sou comerciante. Há semanas que anseio este dia… Finalmente seremos livres!

Afonso era um homem alto, de seus vinte e sete anos, olhos verde azeitona que refletiam a luz do sol, tornando-os mais claros. Tinha cabelos castanhos claros, acompanhado de uma pele morena que o sol realçava.

– Concordo… Afinal e a única coisa que falta a este lugar, para além do mais, vou conhecer D. Manuel I, um grande homem!

– E a Carlota, já cá habita há quanto tempo?

– Há pouco, cerca de meio ano… Achei a terra tão encantadora e bela que resolvi permanecer aqui até quando decidir em contrário.

– Tem algum sítio em especial, aqui?

– Amo o rio…

– Há dias, enquanto pescava para vender, encontrei um pente de prata que guardei devido ao seu valor e, também, porque parece pertencer a alguém, uma vez que na sua extremidade estão gravadas as iniciais CH.

Espantada, inquere:

– Por acaso não o tem consigo?

– Até tenho, vinha na esperança de encontrar a sua ou o seu dono, na festa. Pode observá-lo.

Afonso retira o pente da sua bolsa de couro, dando-o na mão de Carlota. Esta, perplexa, exclama:

– É o meu pente! Nunca pensei voltar vir encontrá-lo. Parece o destino Afonso, você é a minha salvação! – E, na emoção do momento, beija a face rosada do cavalheiro – Sabe, já é um pente muito antigo, quando o perdi nem queria acreditar, tem um grande valor sentimental para mim.

Cansados da longa caminhada, chegam enfim ao destino. Ouviam-se as palavras declamadas, não pelo rei, mas pelo funcionário da coroa:

– “Sito nas margens do Rio Vouga, data de 27 de Abril de 1514, concedo o Foral, segundo a vontade d’El rei D. Manuel, cuja terra tem por nome… – na emoção de ver, novamente, a sua imagem refletida nas águas do Vouga, Carlota grita- “Se ver no Vouga”- Sever do Vouga.

E assim se conta a história deste pequeno concelho.

 Redação Gazeta da Beira