Carlos Vieira e Castro
Se “o Voto é a arma do Povo”, convém não dar tiros nos pés!
Se “o Voto é a arma do Povo”, convém não dar tiros nos pés!
Quatro décadas de alternância entre os dois maiores partidos (com o CDS no atrelado ora de um¨, ora do outro) levaram à erosão da democracia, ao ponto do alheamento dos cidadãos da política levar a que nas últimas eleições tenha havido tantos eleitores a abster-se e a votar nulo e branco como os que votaram PS, PSD e CDS. Ou seja, bastou um terço dos eleitores inscritos ter votado na direita para dar a maioria absoluta à coligação PSD/CDS. Depois, ouve-se desabafar quer os votantes desiludidos, quer os abstencionistas: “Está visto, são todos iguais!” E nestes todos, incluem mesmo os que nunca beneficiaram do seu crédito eleitoral. Ora, não são todos iguais. É certo que Portugal, está com Espanha e Itália, entre os 5 países, dos 19 analisados, com pior desempenho no Relatório da ONG Transparência Internacional, no que diz respeito à promiscuidade entre gestores políticos e os interesses privados, que se refecte na percentagem de membros dos governos que desde o 25 de Abril, passaram pelo sector financeiro: 54,6%., mais de metade.
Há pouco tempo participei num debate organizado por um blog local, com representantes do PSD do CDS, do PS e do BE (foi-me dito que o PCP não tinha aceite, mas mais tarde um dirigente deste partido afirmou-me que só não foram por não terem sido convidados). Aí, um dos elementos do público, conhecido cronista e bloger, militante do PS Viseu, disse que em Portugal os partidos estavam bem definidos: de um lado os partidos do “arco da governação” a que também se podia chamar (palavras dele) “arco da corrupção”: o PSD, o CDS e o PS, e do outro lado, os partidos do “arco da contestação” a que ele chamava “arco da inutilidade”, por não quererem passar das acções de protesto e sujar as mãos no governo. Respondi que partilhava com ele a primeira classificação, mas contestei a segunda, porque pelo menos o Bloco de Esquerda sempre disse que almejava o poder, tem é relutância, naturalmente, em sujar as mãos e o carácter, não na gestão governamental, mas em se transformar num mero apêndice de um governo do “arco da corrupção”. O BE está preparado para governar logo que o povo lhe outorgar essa responsabilidade pelo voto.
Basta ouvir os debates entre Passos e Costa para ver que o que distingue os dois maiores partidos não é assim tão significativo, mesmo que Passos não passe de um bluf, como comentou José Gil. Se Passos e Portas querem cortar 600 milhões de euros nas pensões (como já foi anunciado pela ministra das Finanças) e pôr em causa a sustentabilidade da Segurança Social, abrindo caminho à sua privatização ao propor o plafonamento das contribuições e das pensões e continuar com a austeridade que aprofunda o desemprego e a emigração, Costa, por seu lado, apresenta o programa mais à direita de sempre do PS, com a proposta de retirar 1.660 milhões de euros às pensões, e coloca também em causa a sustentabilidade da Segurança Social ao propor cortes na TSU e retirar mil milhões de euros do Fundo de Garantia da Segurança Social para financiar a reabilitação urbana. É só escolher: a austeridade brutal do PSD e do CDS e a austeridade talvez um pouco mais dilatada no tempo (os nossos netos e bisnetos podem vir a não gostar da ideia) do PS. Mas ambos recusam pôr em causa o Tratado Orçamental que significa perda de soberania ilimitada e austeridade eterna, e ambos estão de acordo em não afrontar os credores agiotas com propostas de renegociação da dívida. Mas que futuro pode ter um país que nos últimos quatro anos vê a sua dívida aumentar ao ritmo de 1 milhão e meio por hora (!!!), sim, por hora!
O partido de Catarina Martins, Mariana Mortágua, Pedro Filipe Soares, Joana Mortágua e muitos outros e outras dirigentes jovens e competentes, tem vindo a desmontar a“narrativa” de que o Bloco não quer sujar as mãos no governo. Catarina Martins desafiou Costa a abandonar aquelas propostas de direita de cortes nas pensões e na segurança social, de flexibilização dos despedimentos e renegociação da dívida para poder contar com o apoio pós eleitoral a um governo do PS, mas só obteve como resposta de Costa a confissão de que o Bloco lhe provocava “irritação”. É natural. Até Ferreira Leite e Bagão Félix defendem a reestruturação da dívida. Costa até se deve irritar com o seu camarada inglês Jeremy Corbyn, novo líder dos trabalhistas, já que ele defende para o Reino Unido e para a Europa, muitas das propostas do Bloco de Esquerda.
OS PARTIDOS NÃO SÃO TODOS IGUAIS
O Bloco de Esquerda, apesar de ter actualmente o menos grupo parlamentar, foi o partido que mais projectos de lei conseguiu fazer aprovar na Assembleia da República, o que não só significa competência técnica e política como abertura capacidade de diálogo. Foi também graças ao Bloco que em 2012 o corte nas pensões e nos salários previstos no Orçamento de Estado foram chumbados pelo Tribunal Constitucional. Depois do PS e do PCP terem recusado juntar os seus deputados aos do Bloco (em número insuficiente para os 25 necessários para levarem o OE ao Tribunal Constitucional), os bloquistas conseguiram sensibilizar alguns deputados do PS que à revelia da direcção da bancada se juntaram ao BE para infligir esta grande derrota à direita, que levava o freio nos dentes por ter conseguido “uma maioria, um governo e um presidente”.
Foi com muita honra que aceitei ser mandatário da candidatura do Bloco de Esquerda no distrito de Viseu, a única lista que tem 100% dos candidatos a residir no distrito, com paridade absoluta entre homens e mulheres entre os candidatos efectivos, e até uma maioria de mulheres se contarmos com os suplentes, para além de uma representatividade regional pouco usual (em nove candidatos efectivos, oito são de diferentes concelhos do distrito) e sobretudo, com uma abertura à cidadania patente na maioria de candidatos independentes (6 em 9 efectivos), com bastantes activistas sociais, a começar pelo cabeça de lista, António Gil, professor, artista plástico, escritor e poeta premiado pela Sociedade Portuguesa de Escritores, e um dos rostos mais conhecidos da organização em Viseu das manifestações contra a Troika.
A eleição de António Gil seria uma mais valia para o grupo parlamentar do Bloco e para os interesses das pessoas do distrito de Viseu, que têm sido representadas até agora, por deputados que votam a favor das portagens nas ex-SCUTS, do encerramento de serviços públicos no distrito, e a favor da continuação da corrupção e do enriquecimento ilícito, já que têm votado contra as propostas que o BE tem vindo a apresentar desde 2009, tendo a última sido apresentada este ano, com o PS a juntar-se ao PSD e ao CDS para chumbar a total transparência dos políticos e dos altos cargos, alargando a lista dos responsáveis com a obrigação de declarar o seu património.
Como dizia José Afonso: O QUE FAZ FALTA É DAR PODER À MALTA! Para construir uma TERRA DA FRATERNIDADE, onde O POVO É QUEM MAIS ORDENA.Redação Gazeta da Beira
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