Mário Pereira

Uma proposta para o próximo governo

Uma proposta para o próximo governo

O aproximar das eleições traz sempre mais animação ao debate sobre a política e os políticos, continuando a ser muito repetidas as ideias de que não vale a pena ir votar e que os políticos ganham demais.

Este discurso contra a política é, em boa medida, alimentado por quem tem interesse em que o poder político seja fraco, merecendo por isso alguma análise.

É certo que, para serem bem sucedidas, as sociedades humanas precisam de poderes coletivos organizados, que ajudem a gerir os recursos disponíveis e a resolver os conflitos. Sem esta capacidade não teríamos desenvolvido a civilização em que vivemos, nem aquelas que nos antecederam.

As nossas sociedades modernas são dirigidas essencialmente  por quatro poderes.

O político – em que nós, apesar de tudo, podemos ter alguma influência

O económico – em que apenas as pessoas que detêm a riqueza têm influência.

O judicial – que deveria ser independente dos outros poderes, mas que entre nós tem vindo a querer alargar o seu poder.

O controlo da informação – exercido por quem detém os meios de comunicação e que, de certo modo, controlam o que nós sabemos do mundo e dessa forma influenciam o nosso pensamento.

Dizer que é da natureza dos políticos serem maus, enquanto pelo contrário é da natureza dos empresários,  juízes e jornalistas serem bons e competentes, além de ser uma generalização, completamente abusiva, é um grande erro.

Aos outros poderes interessa que o poder político, que em última instância os deveria regular e equilibrar, seja fraco e pouco respeitado pelos cidadãos, pois isso aumenta o seu poder e facilita o controlo que eles pretendem exercer sobre o poder político.

Infelizmente, por cada mau político é fácil encontrar um mau empresário, um mau gestor, um mau jornalista ou até um mau juiz ou procurador. Parece óbvio que se não houvesse pessoas que os corrompessem não haveria políticos corruptos.

Uma das formas de enfraquecer o poder político é conseguir que haja cada vez menos pessoas a votar nas eleições e nós tendemos a pensar que o nosso voto não vale nada e que por isso votar ou não votar é indiferente.

O problema é que nós apenas temos o poder de escolher os políticos.

Embora isso não aconteça todos os dias, já houve presidentes de câmara eleitos por diferenças inferiores a dez votos e um  voto a mais ou a menos pode fazer com que em Viseu, por exemplo, seja eleito um deputado do PS ou do PSD e no final esse deputado pode fazer a maioria no Parlamento.

Aposto que no dia a seguir às eleições vai haver jornalistas e comentadores a dizerem que face à elevada a abstenção o próximo governo estará muito fragilizado. Discurso que faz parte deste processo de descredibilização do poder político.

Muitíssimo comum também é ouvir dizer que os políticos ganham demais.

Há, certamente, casos de políticos que não merecem o que ganham, mas se me deixassem apontar pessoas que não têm cargos políticos e não merecem o que ganham a lista não seria pequena.

O governo da Holanda, cujo o primeiro ministro é do Partido Liberal (muito próximo no PSD) e não do Syriza ou dum partido esquerdista, tomou uma medida muito interessante e que faria todo o sentido ser aplicada em Portugal.

A medida consiste em estabelecer como norma que as empresas não paguem ao seus gestores e trabalhadores mais do que o salário do primeiro-ministro, que na Holanda é de de cerca de cento e cinquenta mil euros anuais.

Não seriam precisas grandes penalizações. Bastaria estabelecer que as empresas que têm dinheiro  para pagar aos seus gestores ou aos seus quadros salários mais altos do que o do primeiro-ministro não poderia ter acesso a nenhum tipo de benefício ou isenção fiscal. Assim,  poderiam dizer, com propriedade, que pagam o querem porque o dinheiro é delas.

Se aplicássemos esta regra em Portugal muitas pessoas que hoje dizem que o primeiro- ministro ganha demasiado depressa fariam manifestações a pedir o aumento do salário dele.

Infelizmente, há medidas aplicadas por alguns partidos de direita europeus que em Portugal nem os partidos de esquerda se atrevem a propor.

Setembro 2015     Mário PereiraRedação Gazeta da Beira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *