Manuel Silva

TSIPRAS TRAI O VOTO DO SEU POVO

Ed680_TsiprasNo passado mês de Janeiro, o povo grego elegeu o Syriza e Alexis Tsipras, infligindo uma pesada derrota aos partidos responsáveis pela austeridade causadora de uma taxa de desemprego de 25%, sendo de 50% entre os jovens – os desempregados não tinham sequer direito a assistência pública na saúde -, quebra acentuada do PIB e do poder de compra, aumento generalizado da pobreza e destruição de parte considerável da classe média. Esses partidos, irmãos políticos do PS, do PSD e do CDS, acompanhados dos seus amigos das instituições políticas e financeiras europeias, destruíram a economia grega e aumentaram o endividamento que diziam pretender combater. Em Portugal passa-se algo de parecido, o que é perceptível pelos cidadãos, apesar da propaganda, segundo a qual estamos no melhor dos mundos, levada a cabo pelo governo e os seus acólitos da comunicação social, com especial destaque para o outrora independente “Expresso”.

No passado dia 5 de Julho, a maioria dos gregos, dizendo NÃO à continuação das políticas austericidas propostas pelos que mandam nesta Europa sem alma, traidores dos ideais de justiça e solidariedade dos fundadores da CEE, disse SIM À DEMOCRACIA, SIM À INDEPENDÊNCIA NACIONAL, mostrando ao PPE, ao PSE e aos partidos seus componentes que não há políticas nem pensamentos únicos, nem inevitabilidades, e cada povo tem o direito de escolher a via que quer, pois se assim não fôr, estamos perante uma falsa democracia e a subjugação de tipo colonial dos países pequenos e pobres às potências dominantes na UE. Os políticos, analistas, economistas, jornalistas e até bloguistas defensores de mais pobreza e miséria para o povo grego meteram a viola no saco  ou desataram a espumar de raiva e a vociferar contra um povo que não se rende e defende a sua dignidade, como fez contra as tropas nazis. Entre os mais destacados derrotados pelo referendo encontram-se dois “socialistas”, o presidente do Eurogrupo e o comissário europeu para a Economia.

Após a vitória do NÃO, que encheu de alegria todos os democratas e patriotas da Europa inteira e do resto do mundo, o ministro das Finanças, Varoufakis, que enfrentava os seus colegas de cabeça erguida nos conselhos de ministros europeus, demitiu-se. Pelo que agora se constata, foi o primeiro sinal da punhalada que o governo de onde saiu daria nas costas dos seus eleitores e dos gregos em geral. Poucos dias passados sobre o referendo, Tsipras imitou muito bem o falso  socialista francês, Hollande, após a sua eleição, há  3 anos.

Apresentou um projecto de reformas que prevê o aumento do IVA e demais impostos, não só sobre as grandes empresas e respectivos lucros, mas sobre a classe média, acaba com o suplemento de solidariedade para os pensionistas, os quais vêem as suas contribuições para a saúde aumentarem significativamente. Fala-se ali em alterar as leis laborais,” adaptando-as ao resto da Europa”, ou seja, despedir mais facilmente e retirar direitos a quem trabalha. Estas propostas, a troco de um empréstimo para pagar outros empréstimos e respectivos juros aos credores, pouco diferem das propostas chumbadas no referendo de 5 de Julho. Com estes governantes e o sector dirigente do Syriza, os gregos só podem esperar a continuação do empobrecimento, da miséria e o fim do que ainda resta da classe média.

Os gregos já mostraram, agora e no passado, não serem um povo de espinha mole. Ninguém se admire se um destes dias houver uma revolução a sério nas ruas e até um assalto ao poder, semelhante ao assalto dos bolcheviques, liderados por Lenine, ao Palácio de Inverno, em Sampetersburgo, em 1917. Será necessário chegar a esse ponto para os partidos moderados de toda a Europa voltarem a submeter a economia à política, a preocuparem-se com o crescimento da mesma economia, a melhoria das condições vida das populações, o combate à pobreza, à miséria, ao desemprego, a criarem condições para haver novamente uma classe média maioritária nas sociedades, que foi o “segredo” para o capitalismo de rosto humano, dirigido por políticos democratas e com sentido social, à direita e à esquerda, terem feito implodir o comunismo? O que se está a passar na Grécia deve servir de exemplo aos portugueses em vésperas de eleições. Os entusiastas das políticas da UE não divergem no essencial, pelo que é necessária uma forte votação nos partidos à esquerda do PS, velhos ou novos, reforçando-os no parlamento, o que, por outro lado, dará mais força à contestação social necessária após o próximo acto eleitoral, seja qual fôr o vencedor.Redação Gazeta da Beira

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