João Fraga de Oliveira
“Poderose” e “raiva” futebolística, duas doenças sociais
Ao poder, a primeira coisa que se diz é «não». Não por ser um «não», mas porque o poder tem de ser permanentemente vigiado. O poder tem sempre tendência para abusar, para exorbitar. (José Saramago)
Um polícia, com um bastão na mão, agride repetidamente um homem no chão, enquanto soca e empurra outro, mais velho. Tudo na presença de duas crianças aflitas. Tudo isto se passa na rua, num ambiente de distúrbios relacionados com um jogo de futebol, com envolvimento da polícia.
As imagens indignam e revoltam muita gente. Se não existissem ou não fossem tão divulgadas (ainda que a situação fosse conhecida), talvez assim não acontecesse. De qualquer modo, a contestação a tal comportamento foi quase geral. Aliás, seria socialmente doentio se assim não acontecesse, apesar de, em geral, ultimamente, ser mais regra a apatia, a indiferença e o conformismo do que a indignação cidadã e a contestação social perante injustiças e violências sociais graves, ainda que de outra natureza.
De um ponto de vista individual, o que mais se destaca é a brutalidade com que o polícia agride o homem no chão, tanto mais chocante por não só não se inibir deste comportamento violento na presença dos filhos (com nove e treze anos) e do pai do agredido, como, mesmo, de empurrar violentamente este último, seguramente muito mais velho do que ele.
Pelo prisma organizacional, da organização PSP, tendo o polícia em causa responsabilidades de chefia, fica a preocupação sobre as eventuais repercussões profissionais, organizacionais e sociais do exemplo desviante de (in)segurança pública que o seu comportamento projecta.
É claro que, ainda por este prisma, “uma árvore não é a floresta”. Não obstante deva ser reflectida a natureza da génese (se estritamente individual se, de algum modo, organizacional) deste comportamento, não é minimamente legítimo generalizar a análise e caracterização desta situação concreta à organização PSP (no sentido das pessoas que nela trabalham), como entidade que tem por qualificada e responsabilizante missão “garantir a segurança interna e os direitos cidadãos, bem como defender a legalidade democrática”.
Mas, em termos de enquadramento mais vasto, talvez o mais grave sejam algumas doenças sociais que por aí grassam e de que esta situação é “mero” sintoma e exemplo.
Uma dessas doenças caracteriza-se por haver por aí muita gente a confundir autoridade com autoritarismo.
A confundir dever estar como autoridade pública em certas condições e circunstâncias (e em função da natureza, importância, dimensão e gravidade destas quanto a interesse público) com “ser” “geneticamente” uma autoridade pública.
A confundir poderes meramente instrumentais da prossecução profissional de um serviço público com “poderes” estruturalmente pessoais.
A confundir o poder como dever (serviço) com o dever (serviço) como poder.
A confundir o poder como mero instrumento de serviço público com o serviço público como mero instrumento de poder.
O poder é sempre o poder sobre o Outro, o Outro que, como todos os homens, “nasceu livre e igual” (Artigo 1º da Declaração dos Direitos Humanos). Daí, os graves riscos humanos e sociais da sua má interpretação, do seu abuso, da sua exorbitação (como escreveu José Saramago).
Assim, um dos riscos socialmente patológicos do poder é a sua degeneração em “poderose”, uma doença mais ou menos “epidémica” que, apesar de em regra não ser “telediagnosticada” à saciedade como neste caso, paira por aí em maior ou menor grau, mais latente ou mais efectiva, mais visível ou mais escondida em várias outras áreas e domínios sociais que não só nas forças de segurança: nos poderes políticos, na administração pública central e local, nas instituições, nas associações, nos partidos políticos, nos tribunais, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, nos locais de trabalho, etc.
Claro que a “poderose” é socialmente ainda mais grave quando decorre do (ab)uso, inadequado e ou desproporcionado do poder por parte de quem (pessoa ou entidade) com funções legais de autoridade pública. E mais ainda quanto, como neste caso, tais funções podem, em determinadas circunstâncias, implicar o uso da força perante pessoas.
Mas, para além de sintomática de um caso de “poderose”, esta situação ocorrida recentemente em Guimarães (e as que, de índole idêntica e com a mesma génese, se verificaram em Lisboa), sobretudo o seu contexto espacial, temporal e circunstancial, é também sintoma de outra doença social que, não obstante não relativize a gravidade dessa situação, de certo modo, a explica.
Esta outra doença, mais geral, emerge, cresce e é alimentada pelo doentio “caldo” social (e mercantil) que é a “selva” em que, muitas (demasiadas) vezes, o futebol se transforma, doença essa à qual, aliás, também subjaz uma certa ilusão doentia de poder(ose), ainda que mais efémero, o “poder clubístico”. Essa doença é a “raiva” patente nas “tribos” (recorrendo ao título de um livro de Desmond Morris – “A Tribo do Futebol” – Edições Europa América, 1982) de alguns “tribais” (os ditos “adeptos” e, mesmo, pelo menos moralmente, alguns dirigentes) que “plantam”, animam e por vezes incendeiam (literalmente) essa “selva”. E da “sanha” descontrolada dos quais – é necessário sublinhar –, em geral, é a polícia que garante a segurança dos cidadãos.
Estas duas doenças, “poderose” como entendimento e prática violenta e desviante do poder e “raiva” futebolística como entendimento e prática violenta e desviante do desporto, são ainda mais perigosas, porque não só interagem como se intra e interpotenciam. Além disso, “pegam-se”, são muito contagiosas.
Falta saber e (sobretudo) fazer muito (informação, formação, educação, disciplina, organização, políticas…) para a “cura” e, mormente, para a profilaxia (também) destas “doenças” sociais.
Redação Gazeta da Beira
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