Manuel Silva

Os intelectuais face ao poder

Na Revista da edição do “Expresso” do passado dia 3 de Abril foi publicada uma excelente reportagem sobre o principal intelectual do salazarismo, António Ferro.

Politicamente, António Ferro era um homem de direita nacionalista e radical, nutrindo forte simpatia pelo fascismo e Mussolini, que, na qualidade de jornalista, entrevistou. Era também possuidor de uma invulgar cultura. Jornalista, escritor, embaixador,  fez parte do movimento literário  vanguardista e modernista dos anos 10 e 20 do século passado. Este movimento, cá e no estrangeiro, foi fortemente influenciado pelos ideais nacionalistas e fascistas.

Desde o início do Estado Novo que se identificou com o salazarismo, tendo sido escolhido pelo ditador para chefe da propaganda do regime, papel que desempenharia até terminar a II guerra mundial, sendo então afastado pelo mestre a quem serviu cerca de 20 anos, o qual o agraciou com um lugar de embaixador.

Como propagandista do regime, Salazar deixou cair Ferro quando o mesmo já não lhe era útil, no que foi influenciado por vários ministros e dirigentes da União Nacional que invejavam e detestavam aquele intelectual orgânico.

Como afirma Mário Vargas Llosa, a quem mais adiante nos referiremos, o fascínio de inúmeros intelectuais por ideologias e regimes totalitários deve-se ao desejo que sentem pela perfeição social, julgando dever ser o mundo perfeito como um poema, uma peça de teatro, um livro, um filme, um ensaio, etc. Daí a sua simpatia pelas engenharias sociais e totalitárias que, além de falhadas na prática, provocaram morte e sofrimento a centenas de milhões de pessoas.

De um modo geral, os intelectuais orgânicos acabam, após serem utilizados, desprezados pelos ditadores de direita e de esquerda. António Ferro não é caso único.

As democracias também  têm os seus intelectuais orgânicos, servidores e mesmo bajuladores, quase sempre a troco de benesses, de quem está no poder. Um dos mais destacados intelectuais democratas das últimas décadas, o italiano Umberto Eco, afirma deverem os intelectuais ser a consciência crítica da sociedade, mesmo quando identificados com quem governa.

Por outro lado, quer em ditadura, quer em democracia, salvo raras excepções, os intelectuais são maus políticos executivos, como são os casos de Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba. O trabalho político do intelectual poderá ser fecundo como parlamentar ou num gabinete, seguindo, no entanto, a lição acima mencionada de Umberto Eco. Pacheco Pereira e Manuel Alegre aí estão a confirmá-lo.

Mário Vargas Llosa, após ter militado no Partido Comunista Peruano com outros jovens marxistas do seu tempo, como é o caso do líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzzman, actualmente a cumprir uma pena de prisão perpétua, tem defendido as liberdades fundamentais e a democracia, combatendo todas as ditaduras. Há 25 anos, candidatou-se a Presidente do Perú, tendo sido derrotado na segunda volta eleitoral pelo obscuro Fujimori, que viria a instaurar naquele país andino uma ditadura cleptocrática, praticando, em nome do combate ao terrorismo senderista e tupac amaru, o pior dos terrorismo, o de estado.

A derrota do autor de “Conversa na Catedral” não se deveu à tradicional má relação dos intelectuais com o poder executivo ou moderador, mas, apesar de criticar as engenharias sociais utópicas, a também defender uma utopia democrática, mas falhada, chamada liberalismo, especialmente na sua vertente económica. Os peruanos sabiam pela experiência de vizinhos seus ter aquela ideologia espalhado desemprego, fome, miséria e enormes desigualdades sociais. No programa da candidatura de Vargas Llosa não constava praticamente nenhuma referência ao papel do Estado na educação, na saúde ou na segurança social. Isso era com os privados.

Mário Vargas Llosa não aprendeu a lição. Continua a dizer ser necessária uma revolução liberal na América Latina. Os povos da Venezuela, Brasil, Uruguai, Bolívia ou Equador repudiam  o liberalismo, elegendo presidentes e governantes de esquerda, a maioria dos quais marxistas adaptados aos novos tempos.

Em artigo publicado  há cerca de dois meses no jornal espanhol “El País”, Vargas Llosa tratava com desprezo o povo grego por ter eleito Tsipras e o Syriza e defendia a arrogância anti-democrática da Alemanha relativamente aos países sujeitos a “ajustamento”.

Como sempre, continuo a admirar Mário Vargas Llosa  enquanto escritor – possuo a maioria das suas obras – e como defensor das liberdades, mas porque contrariamente às afirmações de vários liberais, como é o caso do ex-marxista-leninista-maoista convertido ao liberalismo e ao conservadorismo, João Carlos Espada, para mim, a democracia só é autêntica se também fôr  social e económica, no plano ideológico  e político lato sensu, deixei de ter aquele intelectual como referência.Redação Gazeta da Beira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *