Mário Pereira
Está tudo explicado
Crónicas do Olheirão
Durante anos disseram-nos que o nosso atraso se deveria a uma incompetência congénita dos trabalhadores e pequenos empresários portugueses que não têm os níveis de qualificações necessários para serem competitivos na economia atual.
Estes fatores somados à pouca eficiência do Estado e da administração pública e à falta de recursos naturais explicariam o nosso atraso secular.
A Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES, ainda que não sirva para mais nada, já conseguiu demonstrar com clareza que uma das maiores causas do nosso atraso é a falta de memoria e de carácter das nossas elites.
Fico estupefacto com a ligeireza com que homens e também algumas mulheres, “filhos da fina flor”, que puderam estudar no estrangeiro e pertencem ao grupo dos mais bem pagos do país (todos eles incomparavelmente mais bem pagos do que os deputados que os interrogam) assumem que não sabem nada, que não se lembram de nada e que afinal não mandavam em nada.
Se as pessoas que têm dirigido grandes bancos e grandes empresas não se lembram do que fizeram há menos de um ano, uma das hipóteses é terem sido escolhidos, exatamente, por não terem memória.
Outras características, que quem os esolheu procurou, seriam uma elevada inteligência, para engendrarem os esquemas que se veem, bem como a ausência de carácter e de sentido crítico para não terem problemas em fazerem o que lhe mandassem. A troco de muito dinheiro, claro.
Os grandes gestores que têm ido ao Parlamento dizer que não se lembram, também se esquecem de que a memória é uma componente fundamental do caráter das pessoas e que sem memória também não teríamos uma personalidade e uma individualidade próprias. Basta recordarmos os casos de pessoas nossas conhecidas atingidas por doenças que afetam a memória.
Estas audições mostram até à exaustão que entre a elite nacional, mesmo entre os que gerem grandes empresas há demasiada gente sem carácter e com um sentido de responsabilidade social que não vai além de si próprio.
É grotesco que o eng Zeinal Bava diga na Comissão de Inquérito que não se lembra de um investimento de 800 milhões de euros feito em 2014 pela PT no BES e que ao mesmo tempo se tenha lembrado que a PTGPS lhe deve cerca de dois milhões de euros relativos a de prémios de gestão de 2012 ou 2013.
Há esquecimentos e lembranças que definem as pessoas.
Acreditando que lhe tivessem prometido esse prémio é preciso lata para o reclamar depois de tudo o se passou na PT.
Ricardo Salgado, no meio de tudo isto, parece mais o dono de um teatro de marionetes do que um banqueiro. O azar dele é que as pessoas que escolheu por não terem memória também se vão esquecer dele logo que possam.
Para um país que passou anos e maldizer os políticos e a adorar estes bezerros dourados, nomeadamente muitos jornalistas, comentadores e professores universitários, este deveria ser um momento de reflexão pois todos nós também nos temos esquecido de pensar com sentido crítico.
É curioso que entre as nossas elites políticas também haja uma tendência para se esquecerem de coisas, quando está em jogo dinheiro:
– Temos um presidente que não sabia quanto recebia de reforma e também não se lembrava de um negócio manhoso com ações.
– Um primeiro ministro que se esqueceu de pagar as contribuições para a Segurança Social.
– Um ex-primeiro ministro que pedia dinheiro a um amigo mas não sabe quanto.
Há um certo consenso nacional que estamos sob a influência e o domínio alemão. Só que que esse domínio parece mais ser exercido pelo Sr. Alhzeimer do que pela Sra Merkel.
É evidente que um país em que o governo e as grandes empresas são dirigidos por pessoas com falta de memória e por consequência de carácter não poderá ir muito longe.Redação Gazeta da Beira
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