Para retransmitir tradições e paixões
Em Santa Cruz, Arcozelo das Maias, nasce escola de música tradicional de Lafões
O ano 2015 trouxe boas notícias para a região. Em Arcozelo da Maias nasceu, pelas mãos da Associação Académica Santa Cruz, uma escola de música tradicional de Lafões. Neste momento são cerca de 20 os membros, mas as inscrições ainda estão abertas. A Gazeta da Beira foi assistir a um dos ensaios deste projeto que quer consciencializar a sociedade e o poder local para a importância do património imaterial de Lafões.

Quinta-feira à noite, é dia de ensaio na sede da Associação Académica de Santa Cruz. Ainda são poucos os desta escola que entrou em funcionamento, ainda este mês e que promete não deixar morrer as tradições. Como explica Abílio Silva, Presidente da Associação o objetivo passa “por retransmitir os conhecimentos aos mais novos, para que o nosso património imaterial continue vivos pelas gerações, explica. E vai mais longe, como acrescenta, temos como grande objetivo, “consciencializar a sociedade e as autarquias para a importância do nosso património imaterial, temos consciência que sozinhos não conseguimos pensar a mensagem, é por isso importante termos o apoio da autarquia, assim como, de outras entidades”.
Para Paulo Pereira, coordenador musical, é essencial que se comece a valorizar as raízes.
“Não estamos inseridos num território por acaso, se estamos inseridos num território devemos valorizá-los, é importante criar a nossa identidade e a música tradicional é parte integrante daquilo que somos, é uma expressão muito importante do nosso povo. As pessoas, muitas vezes, têm muita vergonha do rural e do campo, quando devia ser precisamente ao contrário, devia ser motivo de orgulho. O que temos tem muito mais valor do que aquilo que se pensa, temos um património riquíssimo”.
Do Grupo de Cantares à Escola de Música
Tudo começou há já quatro anos, quando a associação iniciou um trabalho de recolha por toda a região. Quanto mais músicas encontravam, mais surpreendente era a descoberta. Hoje são já centenas de músicas, variadas, mas o trabalho continua, até porque não há tempo a perder. “Nós estamos a perder a última geração que teve contacto direto com aquele povo que cantava na rua, nas tarefas do dia-a-dia. Cientes disso, iniciamos este trabalho de recuperação do nosso património imaterial, em particular no concelho de Oliveira de Frades, mas de toda a região”.
Depressa se aperceberam que queriam ir mais longe, libertaram-se das fronteiras e para além dos três municípios (integralmente) de Lafões: foram para outras localidades: Sever do Vouga; Castro Daire; Águeda; Arouca, Vale de Cambra, são só alguns exemplos. Isto porque, “há muitas ligações entre estes concelhos”. Daí até à criação de um grupo que valorizasse as raízes foi um passo. Nasce o Grupo Danças e Cantares da Aldeia prontos a levar a bom porto as polifonias de Lafões.
Agora começa uma nova etapa: A Escola. “Tínhamos uma necessidade de formação constante, só assim conseguimos transmitir a música com qualidade e saber”, explica Abílio Silva.
Tradição e educação musical, o “dois em um”
A escola de música, em Santa Cruz junta o ensino da música às raízes da região, “um dois em um” que Paulo Pereira valoriza: “termos uma geração que pode aceder a um serviço musical de qualidade ótimo, se isto ainda se reflete no desenvolvimento do amor próprio à terra de onde vêm melhor”.
Para o professor o “acesso à música é um bem de primeira necessidade”, por isso valoriza o nascimento deste tipo de projetos que permitem “uma descentralização do ensino da música que vêm contrariar um certo elitismo que ainda hoje ser verifica nos conservatórios”. A Escola de Música Tradicional de Lafões assume-se assim como “um ensino popular que quer chegar a toda a gente”, garante Paulo Pereira.
A formação vai ser gratuita para os elementos do Grupo de Cantares, mas é, também aberta a todos os que queiram aderir. Estes vão te um preço mensal que ronda os vinte euros, mas só “até terem conhecimentos suficientes para integrarem o Grupo de Cantares”, garante Abílio Silva.
Música Tradicional e o preconceito que persiste
Para Paulo Pereira, “há ainda um preconceito e não existe o devido reconhecimento pela música tradicional”. Factos que considera injustos, numa atualidade em que “começa a haver uma qualidade crescente”. Como explica, “começa a haver muitos grupos e profissionais nesta área, há alguns anos atrás as pessoas que trabalhavam na música tradicional eram amadoras, mas hoje não é essa realidade, há muita qualidade, acredito mesmo que, muito em breve, a música tradicional terá lugar no ensino superior, à semelhança, agora, do que acontece, por exemplo, com a música clássica, isso existirá com certeza!”
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