“É um dever preservar o nosso património”

Alafum, há 30 anos a promover a música tradicional

O Alafum comemora 30 anos de carreira. No passado sábado, dia 11 de outubro, o grupo deu um concerto comemorativo, em casa, no cineteatro Jaime Gralheiro, em S. Pedro do Sul. Um concerto memorável que a Gazeta da Beira não quis perder. Depois de quase duas horas em palco, José Fernando, em entrevista, faz um balanço dos 30 anos do grupo e fala da importância da música tradicional e da conservação do património de Lafões.

centraisTrinta anos, 8 discos gravados, centenas de concertos por todo o país, por todo o mundo. São muitos os motivos para comemorar. José Fernando fala com orgulho deste Grupo de Cantares de Lafões. “O balanço é extremamente positivo, não é fácil encontrar um grupo que consiga andar na estrada por 30 anos. O Alafum é, em Portugal, dos casos raros em que isto acontece”.

No coração, são muitas as recordações de uma história já com tantas páginas. “Felizmente são mais os altos que os baixos. Penso que o momento menos bom foi, quando o grupo já tinha grande visibilidade e tivemos que mudar alguns elementos. Fomos abaixo durante alguns meses, mas logo recuperamos. Momentos positivos temos muitos, “a participação no Centro Cultural de Belém, no Teatro Maria de Matos em Lisboa, a ida ao Brasil ou a vários países na Europa… é para nós um orgulho muito grande, o facto de a nossa música passar a nível nacional e internacional significa que dão valor à nossa música ”, considera o mestre em musicologia.

Trinta anos, a mesma juventude

Nestas três décadas de vida, o Alafum teve uma preocupação: passar o conhecimento pelas gerações. “A única forma de o grupo não morrer”. Como explica José Fernando, “pelo grupo já passou muita gente, muitos começaram aqui e depois enveredaram por outros estilos musicais, o que para nós é uma razão de muito orgulho. O Alafum é uma escola de formação musical”. Do grupo inicial restam dois elementos, a renovação do grupo é evidente: “Hoje, já temos elemento mais jovens que o próprio grupo e assim é que tem que ser, só assim é que conseguimos chegar aos 40, 50 anos, quem sabe mais!”

Música ao serviço do património

O legado que o Alafum deixa aos lafonenses é inquestionável. Através da música, o grupo preserva as tradições, a cultura e a autenticidade das gentes de Lafões. “É um dever preservar o nosso património”, defende José Fernando e, nestas 3 décadas têm cumprido. “O Alufum foi uma escola de ensinamento da conservação do património cultural da região”, defende.

O desejo de preservar o património de Lafões surgiu na vida de José Fernando, quando este era ainda muito novo. Como explica, “Após o 25 de Abril surgiu um certo interesse em reviver as tradições populares. Verificámos que havia o risco de desaparecerem. A nível rural, as pessoas começavam a perder alguns hábitos de trabalho em que se juntavam nas ceifas e na sacha do milho. Começaram a surgir as máquinas e os tratores…. E ninguém canta ao trator”.

Surgiu assim o “Cancioneiro Regional de Lafões”. Cerca de 500 músicas recolhidas em todas aldeias de Lafões. Um repositório de todas as tradições musicais que estavam em risco de se perder. José Fernando fala de “um espólio riquíssimo” que não se podia perder. Como explica, “O povo tem uma cultura musical sem saber música e faz poesia, que eu considero de uma beleza soberba, sem muitas vezes saber ler”.

Em simultâneo nasce o Alafum, há 31 anos. Depois de mais de um ano de ensaios fizeram a primeira apresentação em S. Pedro do Sul. Uma primeira experiência que lhes deu vontade de continuar. “Recebemos logo ali muitos elogios”, recorda José Fernando. Um ano depois, em 84, legalizaram a associação e é essa a data que hoje comemoram.

Viver da música, em tempos de crise

Nem sempre é fácil viver no mundo da música, ainda mais num país que não apoia a cultura. “O Estado considera a cultura tradicional uma cultura menor”, lamenta José Fernando. Não é por dinheiro que continuam na estrada… antes, “pelo amor à camisola pelo gosto que temos em tocar e em conservar o nosso património”, mesmo que, às vezes até se tenha prejuízo. “Em vez de ganháramos algum dinheiro com isto só gastamos, aqui há anos atrás nos concertos ainda pagavam… o mínimo, mas dava para as despesas, atualmente, penso que os grupos tem que pagar para poder atuar.”

Quanto ao futuro, o Alafum tem vários concertos na agenda, lá para a Páscoa, se tudo correr bem, o grupo deve lançar um novo cd.

Alafum em festaOs 30 anos do Alafum estiveram em destaque no último sábado. Depois do concerto comemorativo, no passado dia três, no Teatro Viriato, em Viseu, o grupo também quis assinalar o aniversário em S. Pedro do Sul. Pelo palco passaram algumas músicas do vasto reportório, passaram também vários convidados. Isabel Silvestre, Gin Sónico Jazz Quarteto; The Grayhound James Band juntaram-se à festa. Uma iniciativa apoiada pelo município. No evento estiveram presentes o Presidente da Câmara e a Vereadora da Cultura, Teresa Sobrinho. Vítor Figueiredo falou no papel do Alafum nestes 30 anos, um grupo “que extravasa as fronteiras do concelho e que muito tem contribuído para levar o nome de S. Pedro do Sul, além-fronteiras”. O autarca salientou ainda a vertente solidária que sempre norteou o grupo.

 Redação Gazeta da Beira

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