António Gouveia

“Segue o teu destino” numa viagem de veraneio e agosto a Oliveira

Ed660_Oliveira-FradesA Oliveira já não ia há muito e com tempo para permanecer, observar e apreciar. Fi-lo há dias, tempo de fim-de-semana instável de um verão de agosto austero, triste e deprimente. Com surpresa e consolação, devo confessá-lo, vi a minha terra mais limpa e com menos obras por acabar, esta vila florida e nela “a terra negra dos canteiros e os meus sonhos sepultados vivos e inteiros”, como tão bem canta Sofia num dos seus poemas. Olhei também os dois jacarandás a espreitar a nova rotunda, floridos num azul especial e lembrei-me de outro poema de Eugénio de Andrade: “são eles que anunciam o verão, não sei de outra glória, doutro paraíso: à sua entrada os jacarandás estão em flor, um de cada lado e um sorriso, tranquila morada à minha espera”.

Li algures que houve mudança na recolha do lixo, o município trata agora disso, eis a razão da minha visão e surpresa, foi também uma decisão financeiramente eficiente, € 5.000,00/mês de lucro, em tempo de vacas magras e obrigação de atalhar a despesa orçamental, por isso vi a minha terra mais limpa e asseada. E vi também a Escola Secundária quase pronta e nos últimos retoques, também as rotundas já acabadas, só aquela galinha branca (aprece-me que é um frango do campo) que vi quem vai para Cajadães, achei-a tão despropositada e inoportuna como outrora a rotunda que agora lhe serve de poleiro. Não se pode acertar sempre, aconteceu o mesmo com a dos peixeiros, a política é isto mesmo, umas vezes acerta-se outras nem tanto, Benjamim Franklim disse (ou escreveu, nem me lembro) que “a política é a arte do possível”. Percebo, percebemos todos, mais ou menos.

No jornal do Centro li os desabafos da Vani, jovem de mala pronta para sair de Viseu, “são lá as minhas raízes – diz ela – “é uma cidade que não oferece condições para se ser independente (e onde) as mentalidades, infelizmente, pouco evoluíram” – acrescenta. Como a compreendo! Percebo por que saiu para a Suíça italiana e depois para Londres onde “se chateia” (porque) “é difícil apanhar um dia com sol e (ver) o céu limpo à noite, as estrelas, a lua”. Olho o teu rosto, querida Vani e nele vejo um olhar límpido, cheio de esperança e penso nos meus filhos: uma, a Susana, fora uns anos, regressou e quer abalar de novo; o mais novo, o João, lá longe no médio oriente há seis anos, trocaram ambos, tal como tu, este sol e este clima maravilhosos por melhor futuro. Infelizmente (o advérbio é teu, sê-lo-á de muitos jovens e de muitos pais como eu e minha mulher), temos tudo por cá para sermos felizes mas, não sei porquê (ou talvez saiba, lá no meu íntimo mas envergonho-me de o referir), não podeis ficar por cá, por isso andamos todos embrenhados neste fado triste, esta austeridade que tarda em desaparecer envolve–nos qual nevoeiro denso, não nos deixa enxergar horizontes de sol, estas são manhãs de invernia, de frustração e de angústia. Contento-me com um poema de Fernando Pessoa, no heterónimo Ricardo Reis, que diz:

“Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é a sombra de árvores alheias”. Sim, eu sei, não é fácil perceber esta mensagem e, mais difícil ainda, poder acreditar nela, duvidamos da sua força e desperdiçamos a resposta que nos dá o “poeta do desassossego” quando remata assim o seu poema e diz que “A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos, só nós somos sempre iguais a nós próprios”.

Aceito o repto e confio no futuro, vamos todos confiar que é possível sairmos daqui sem sairmos de cá e seguindo o nosso destino.Redação Gazeta da Beira

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