António Gouveia
O marinheiro Gama e o político Machiavelli
O italiano que ainda o não era, Niccolò Machiavelli, fez a sua aparição na vida pública de Florença quando (o nosso) Vasco da Gama descobriu a Índia, por mar e vez primeira em 1498. À sua maneira eram ambos estrategas, um na arte da política – os fins justificam os meios, os homens são todos mestres na arte de dissimular e de sobreviver –, o outro na arte de marear – apesar do velho do Restelo. E ambos eram homens importantes nos negócios do Estado, palavra que o primeiro inventou, negócios da política, descobertas e especiarias.
Este Governo que temos não me agrada mesmo se, ideologicamente, se situe (ou pretende situar-se) naquilo que uns apelidam de social-democracia e outros de neoliberalismo. Mas, não me agradando – todos os pensionistas e aposentados estamos do mesmo lado da barricada – eu penso que, desta feita, também o Tribunal Constitucional foi maquiavélico, pensa que todos os meios são úteis e justificam o objetivo, não o de se resolverem os problemas do país mas o dos ordenados dos funcionários públicos, por tabela lá no alto, os de suas excelências. É verdade que os meritíssimos têm razões de queixa – e nós também – quando vemos fedelhos quase imberbes a ganharem tanto como eles, quatro, cinco mil ou mais euros como assessores e ajudantes de outras excelências também altas, os ilustres ministros.
Mas, dizia Maquiavel, é melhor ser impetuoso que prudente, a fortuna é mulher e, para a conservar submissa, é necessário bater-lhe. Mas também é verdade que, assim procedendo, não honramos os ensinamentos do filósofo e Portugal (como Florença) não se libertará da dominação estrangeira (troika, mercados, rentistas, importantes grupos económicos, como entenderem). E, por outro lado ainda, nem sequer poderemos seguir outro conselho, o de estabelecer colónias que sirvam de ligação direta com Portugal. Foi chão que deu uvas, Vasco da Gama, que não lera o Príncipe, fê-lo então, há 500 anos. E, por causa dessa aventura, temos por cá em herança António Costa, outro maquiavélico da política, descendente tardio do Gama, da Índia e da velha Goa, cidade e saudade cujos sinos serão sempre portugueses, o mundo é agora globalizado e já não vivem nele nem o Pandita Nehru nem o António Salazar.
Mas será que, ao menos por uma vez, a teoria de Maquiavel, dita da responsabilidade, como quer Adriano Moreira, vence a de Kant, dita da convicção e os fins justificam mesmo os meios que utilizamos? Será que vamos estar agradecidos, um dia destes, ao português goês por nos tirar desta colonização e escravidão que agora nos sufoca e abafa e ele próprio vai ter a arte, a inteligência e a persistência, de encontrar por aí um parceiro, um Rio imenso que, qual Ganges sagrado, nos lave e purifique a todos de pecados velhos, ora socialistas, ora social-democratas, ora Porto, ora Benfica ou Sporting, a mesma tolice do futebol, coisa diferente de política?
Quem me dera, quem nos dera! Abençoados Vasco da Gama e Niccolò Machiavelli, oxalá os herdeiros destes dois príncipes do renascimento encontrem a força, a coragem e a determinação de poderem servir o Estado e o povo, aquilo que o político e filósofo italiano apelidava de virtude. Quem me dera, quem nos dera a todos que este não seja um desejo, um pensamento sebastianista, devemos estar atentos, a história prega-nos partidas se a não soubermos compreender ou dela tirarmos ilações. Alcácer Quibir foi ali em baixo, muito mais perto que Goa, e o ponto de equilíbrio entre Maquiavel e Kant é sempre o lugar de encontro da prudência e nem sempre se consegue observar.Redação Gazeta da Beira
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