Binaural e o retrato sonoro da essência rural

Associação com sede em Nodar dedica-se à arte sonora experimental

LuisCosta-ed6562014 marca o décimo aniversário da Binaural. Em 2004, Luís Costa, o atual presidente foi um dos fundador de uma Associação que procurava explorar criativamente o território e construir um saber multidisciplinar. Luís Costa e o irmão, Rui Costa, regressaram à terra de origem: São Pedro do Sul, nomeadamente às várias aldeias do maciço da Gralheira e da Serra de Montemuro e fizeram desses seus territórios o local privilegiado para as suas explorações. Uma nova linguagem artística atenta às especificidades de cada som que, cada vez, mais é reconhecida, não só pelo país mas internacionalmente. Um contributo inegável para preservar a autenticidade de São Pedro do Sul que a Gazeta da Beira quis conhecer. Luís Costa, Presidente da Binaural em entrevista.

Gazeta da Beira (GB)- Comecemos pelo início. Como é que surgiu a Binaural e com que objetivos?

Luís Costa (LC)– A génese da Binaural – Associação Cultural de Nodar foi o resultado de dois impulsos irresistíveis: por um lado, um impulso de colocar em prática um modelo de prática cultural inexistente em Portugal, assente na exploração de novas formas artísticas e na sua ligação a processos de reflexão multidisciplinar (estética, geografia, antropologia, arquitetura, etc.) como forma de pensar e expressar criativamente um território (como o nosso território rural) de formas não tradicionais; por outro lado, um impulso de retorno à terra de origem, já que os fundadores da Binaural/Nodar, eu próprio e o meu irmão Rui Costa (que em conjunto com a Italiana Manuela Barile formamos a direção da associação) temos as nossas raízes maternas e paternas espalhadas por várias aldeias do maciço da Gralheira e da Serra de Montemuro (Nodar, Sequeiros, Sá, Covas do Rio, Meã, Ester, Parada de Ester etc.). Em paralelo com estes impulsos “fundadores” foi sempre nosso objetivo viver e trabalhar no território, em ligação quotidiana com as pessoas, principalmente aquelas qualificadas, às vezes ironicamente, de “serranas” e, também, de assumidamente ser independente de qualquer tipo de elite local, ou seja, não fazer parte ativa dos processos que giram à volta dessas elites, o que reduziria o grau de inovação e de projeção (nomeadamente internacional) do nosso projeto, pois as elites locais são quase sempre de tipo “conservador” e autorreferencial, independentemente de estarem alinhadas politicamente mais à esquerda ou mais à direita

 

GB- O nome “Binaural” faz de imediato uma analogia com a escuta. Porquê o interesse especial neste sentido? Numa altura em que as pessoas tem cada vez menos tempo para parar e ouvir este trabalho tem cada vez mais interesse?

LC– A associação incorpora no seu nome duas realidades: “Binaural” que de fato remete para a escuta, para a necessidade de escutar com atenção o mundo que nos rodeia, não apenas com um sentido estético, mas também para “escutar” as subtilezas que a história e o quotidiano dos territórios encerram. Por outro lado “Nodar” remete naturalmente para a aldeia de origem, uma aldeia que é também simbólica por se encontrar no limite entre dois concelhos (São Pedro do Sul e Castro Daire) e dois maciços montanhosos (o maciço da Gralheira/Arada e a serra do Montemuro) e como tal, sempre nos interessou trabalhar para além das fronteiras administrativas, pensar a geografia enquanto comunicação e não enquanto limite.

 

GB- Esta nova linguagem artística tem tido recetividade?

LC- A recetividade ao nosso projeto foi sempre pensada por nós como um processo gradual de relações diretas (e intensas) com comunidades locais, universitárias, artísticas, locais, nacionais e internacionais etc. Nunca sujeitámos o nosso projeto a mecanismos de massificação como forma de aumentar a recetividade. Pautamo-nos sempre por um elevado sentido de risco no que fazemos (no tipo de criações artísticas que produzimos, nas publicações que editamos, no tipo de ações educativas que desenvolvemos) e procuramos sempre um sentido de “diferença”, ou seja fazer o que ainda não foi feito, falar do que não é falado, romper com lugares comuns, nomeadamente aqueles que giram à volta da cultural institucional do mundo rural, como todo o discurso em redor do património que hoje tende a usar uma linguagem simplista e com fins meramente turísticos, conduzindo inclusive a tensões entre territórios que são absolutamente dispensáveis: basta ver o que se está a passar à volta da disputa sobre a Vitela de Lafões entre os municípios de São Pedro do Sul e Vouzela. Em conclusão, posso afirmar que hoje temos uma rede bastante extensa de cumplicidades que vão dos habitantes das aldeias locais, a pessoas e organizações de outras zonas de Portugal, Europa, América e Ásia, etc. No fundo, temos a recetividade que nos interessa ter e sentimo-nos bem com ela.

ed656-IgrejaMiseric-Viseu_LuisCostaGB– O território é a vossa matéria prima. Há ainda muito para recolher?

LC– O nosso projeto tem uma componente importante de recolha sonora e videográfica e de catalogação de elementos da memória local (em articulação com investigadores de países como a Espanha, França e Itália), mas nunca pensada como um processo que tenha um fim objetivo. Se pensarmos com profundidade, percebemos que no nosso território rural coexistem modos de vida que vão do arcaico ao moderno, com muitas nuances e cambiantes em função das localidades e das gerações. Assim sendo, não nos faz sentido só (realço, só!) recolher aqueles aspetos que ilustram um passado que praticamente já não existe, mesmo sabendo que os guardiões dessas memórias estão a desaparecer aos nossos olhos. A atenção de quem estuda um território tem que incluir igualmente todas as dinâmicas de transformação das últimas décadas (a família, a emigração, a democracia, o desenvolvimento das infraestruturas, os modos de habitar e de consumir, de ócio, etc.), só assim a investigação tem utilidade, pois caso contrário será essencialmente um instrumento de nostalgia, o que não é, de todo, o que nos interessa.

 

GB- Dez anos depois, que balanço é que se pode fazer?

LC- Após esta década de trabalho penso podemos dizer que construímos uma metodologia de intervenção, coerente e multiforme. Destaco aqueles que considero os principais momentos do nosso trabalho:Os mais de 120 artistas, a maioria estrangeiros que, acolhemos em Nodar e no maciço da Gralheira desde 2006, os quais desenvolveram trabalhos contemporâneos (nas áreas da arte sonora e das artes media) profundamente ancorados no território e nas suas gentes e dinâmicas;O corpo de trabalhos da nossa diretora artística Manuela Barile, uma italiana a viver entre nós desde 2006, a qual, de forma absolutamente autêntica, íntegra e em ligação com as gentes das aldeias, tem criado um conjunto de obras audiovisuais ligadas a temáticas como a morte, o abandono, a felicidade ou a agricultura que já foram exibidas em festivais e museus de Portugal, Europa, América do Norte e Latina, África e Ásia. O mais extraordinário é que são obras em que a matriz territorial de origem é bem visível, tendo sido realizadas em aldeias como Nodar, Sequeiros, São Martinho das Moitas, Fujaco, Sul, etc., ajudando como tal a divulgar a sua cultura; O conjunto de publicações que a associação já editou e que têm materializado muito do trabalho desenvolvido no território: catálogos, CDs, DVDs, edições online que estão a ter uma grande recetividade nacional e internacional, a que se deve o fato de todas serem bilingues, já que sempre assumimos os nossos públicos potenciais como sendo globais.

GB– Falando especificamente sobre o projeto: Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva -Repositório Audiovisual. Em que ponto está o projeto? A que é que se propõe? Quando é que vai estar concluído?

LC– O  Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva é um projeto de recolha, transcrição, catalogação e difusão de elementos da memória do território, integrado na rede europeia Transmontana de arquivos de memória de zonas rurais (da qual a Binaural/Nodar é o único membro português), sendo um arquivo entendido de forma abrangente pois inclui muitos concelhos e freguesias e múltiplas temáticas de pesquisa. Estamos neste momento a finalizar a organização de um primeiro bloco de cerca de 500 documentos audiovisuais e a sua correspondente inserção num sítio internet dedicado. Contamos concluir até Julho esta primeira fase, altura em que o arquivo será divulgado publicamente, sendo que a partir de Setembro começaremos um segundo bloco de trabalho de campo, com o objetivo de chegar ao final do ano com cerca de 1.000 documentos inseridos no arquivo. Aproveito para referir que com este arquivo pretendemos igualmente criar uma rede de parceiros locais (autarquias, associações de desenvolvimento, comunidades intermunicipais, associações, etc.) de forma a que este tipo de projetos possam constituir no futuro próximo uma âncora em termos de conhecimento e difusão das culturas locais. Há que dizer: a cultura de um território exige estudo profundo, o que muitos autarcas parecem esquecer, ao terem a irresistível tentação de mostrar resultados em pouco tempo, dando como tal prevalência a festivais em detrimento do estudo acumulado e endógeno.

 

GB- Pela Binaural têm passado inúmeros e diversificados artistas. A Binaural tem construído um saber artístico universal? Como é que conseguem essas parecerias?

LC- Desde que começámos assumimos uma dimensão global na nossa prática, a qual vinha já dos tempos anteriores à criação da Binaural/Nodar e decorria da nossa própria inserção em contextos artísticos ligados às artes contemporâneas desde os anos 90 do século passado. A título de exemplo, Rui Costa, membro da direção da Binaural/Nodar percorre desde essa época exigentes palcos de música contemporânea em Portugal, Espanha, Estados Unidos, etc. Ou seja, a nossa ligação ao mundo artístico vem de trás, não se construiu de um dia para o outro, pois se assim fosse, seria impossível a Binaural/Nodar ser hoje o que é.

 

GB- Tem também desenvolvidos algumas parcerias com escolas e universidades. Quais os objetivos destas parcerias, e que balanço se pode fazer?

LC– Sendo nós uma pequena associação de uma zona rural, assumidamente de tipo “familiar”, é através de parcerias que conseguimos projetar o nosso trabalho em diferentes contextos, nomeadamente o contexto educativo. Nesse sentido temos colaborado com imensas comunidades escolares desde o ensino básico ao pós-doutoramento, o que acaba por ser revelador pois, para nós, tem igual importância um pequeno projeto numa escola rural do que uma conferência internacional para alunos universitários. Se tiver que resumir, com estas parcerias pretendemos passar uma ideia-chave: a da importância de pensar sobre metodologias criativas de ligação forte e autêntica à vida, aos territórios e às pessoas comuns, num mundo cada vez mais virtual, indiferente e desligado de relações que não sejam funcionais ou egoístas,. É este princípio que dá corpo a todas as nossas parcerias com jovens, pois é precisamente a juventude está naturalmente mais exposta a uma cultura consumista, virtual, de relativização de princípios éticos e de indiferença em relação ao semelhante.

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GB– A nível económico tem sido fácil sobreviver? Em Portugal as artes são pouco apoiadas?

LC- Não embarcamos na lamentação recorrente de muitos agentes culturais em relação à escassez de apoios pois pensamos que cada projeto cultural tem que criar o seu espaço de diferença e ajustar a quantidade dos seus recursos e das suas atividades ao potencial de apoios que consegue obter em cada momento e quanto mais original foi um projeto cultural, com o tempo (e com paciência), mais apoios conseguirá obter. Mas há que atuar com um sentido de tentar obter uma multiplicidade de apoios, não esperando que seja apenas o Estado Central ou a autarquia local a suportar a atividade. Hoje em dia há que trabalhar num contexto aberto e competitivo, também nas artes. Agora há um aspeto que tenho que referir com toda a frontalidade: na nossa história de dez anos, foi extremamente difícil convencer a autarquia de São Pedro do Sul do mérito do nosso projeto. Lutámos uma luta árdua para o nosso reconhecimento, particularmente revelador quando num contexto de “vacas gordas” (muito diferente do atual) se gastava anualmente dinheiro a rodos em iniciativas de mérito cultural duvidoso (desde logo as festas da cidade com cachets de mais de 10.000 euros pagos a certos artistas!), sendo que o único apoio autárquico que conseguimos foi já no longínquo ano de 2008 (há seis anos atrás!), no montante de 2.500 Euros e arrancado literalmente a ferros, por se tratar de um projeto educativo desenvolvido ao longo de dois anos letivos (foi a primeira versão do projeto “Aldeias Sonoras”). Desde esse momento, nada. Não sendo crítico para a nossa atividade, essa atuação mostra que tipo de prioridades os agentes políticos locais têm tido. Tenho também que afirmar que, não obstante não ter ainda existido qualquer apoio financeiro por parte do atual executivo camarário, há pelo menos um interesse em conhecer e divulgar o nosso projeto, o que é de saudar, pois no anterior executivo isso não existiu.

 

GB- Recentemente a Binaural foi distinguida com o prémio “Miguel Portas”. Em que é que a associação pretende aplicar o prémio? Que portas se podem abrir com este reconhecimento a nível nacional? Quais os principais projecto que a Binaural tem para o futuro?

LC- O prémio Miguel Portas constituiu uma bela surpresa e uma evidência do tipo de alcance que o nosso projeto foi paulatinamente obtendo. Foi para nós particularmente tocante ouvir gente de referência no mundo cultural português como o reputado crítico Augusto M. Seabra ou João Fernandes, Diretor-Adjunto do Museu Rainha Sofia de Madrid, tecerem elogios ao nosso projeto. Esperamos que este prémio faça com que todos aqueles que têm feito por virar a cara ou ignorar o nosso projeto vão perdendo motivos para o fazer, pois não atuamos contra ninguém, pelo contrário, colocamo-nos com um sentido de colaboração com muitas entidades, uma colaboração sempre exigente e crítica, nunca passiva e submissa (e talvez esteja aí o problema, pois para muitas entidades, o ser-se exigente é condição para não convocar, quando devia ser o oposto). O prémio Miguel Portas será aplicado exclusivamente na realização de um conjunto de inquéritos antropológicos audiovisuais sobre a mudança social nas nossas aldeias rurais, os quais terão lugar entre Setembro 2014 e Julho de 2015.

GB- Para finalizar… Dizem que uma imagem vale por mil palavras… Com  o som acontece o mesmo?

LC- Qualquer som remete para um contexto, para uma ideia, para um mundo. Para nós é essa a força do som, a sua capacidade de revelar zonas escondidas da realidade exterior (por exemplo, um território) ou interior (por exemplo, um estado psicológico). Mas um som, por si só, perde se ficar aprisionado num universo meramente estético. Ironicamente as palavras quando são ditas também são som, pelo que palavras e som mais do que competirem, merecem conviver harmoniosamente, contribuindo para a criação de novas e necessárias poéticas.

Luís Costa, em Perfil

Luís Costa (1968). Economista. Presidente da Binaural – Associação Cultural de Nodar (São Pedro do Sul, Portugal). Curador, programador, organizador e documentarista sonoro e vídeo. Em 2006 decide voltar ao território das suas raízes, as montanhas dos maciços da Gralheira, Arada e Montemuro, para desenvolver projetos de documentação, reflexão e expressão contemporâneas, cruzando vivências quotidianas, criação artística e pesquisa territorial. Coordenador do Nodar Rural Art Lab, um, espaço de pesquisa artística multimédia na aldeia rural de Nodar, o qual acolheu já mais de uma centena de artistas e investigadores. Coordenador do Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva, um projeto de pesquisa, catalogação e mapeamento audiovisual da memória coletiva de territórios dos distritos de Viseu e Aveiro, integrado na rede mediterrânica Tramontana de arquivos de memória de zonas de montanha. Realizou o documentário sonoro/vídeo experimental “Onde nasce o meu Paiva?”, estreado em 2011 durante o Festival Paivascapes #1. Enquanto artista sonoro, publicou em 2011 na Edições Nodar, com o artista sonoro inglês Jez riley French, o CD “Sonata for Clarinet and Nodar”. Co-editou em 2011 o catálogo e CD duplo “Três Anos em Nodar – Práticas Artísticas em Contexto Específico no Portugal Rural”, publicou em 2012 o livro de ensaios e entrevistas “Viver um Mundo Antigo: Textos de Arte e Território (2012-2008) e co-editou já em 2014, o livro+DVD “Il Senso del Dolore: Due Opere di Manuela Barile”, publicado em conjunto pelas Edições Nodar e pela editora italiana La Parete della Caverna.

 

 Redação Gazeta da Beira

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