Mário Pereira
A Europa e a esquerda
Há hoje muita dificuldade em identificar o que é ser de esquerda e o que são políticas de esquerda.
Esta é a razão porque os partidos que se assumem de esquerda, (considerando aqui o BE, PCP e alguns partidos e movimentos que se dizem de esquerda), têm tanta dificuldade em apresentar propostas que façam sentido e mobilizem as pessoas.
Agora que se aproximam as eleições europeias era importante conseguir perceber quais são ou deveriam ser as propostas da esquerda.
Um dos problemas que torna difícil a orientação da esquerda é o facto do estado nação estar a perder importância e serem cada vez mais as situações com impactos na vida de cada um de nós que acontecem fora das fronteiras do nosso estado.
Uma questão nova e emergente é a consciência de que os humanos são uma comunidade única a habitar um território comum.
O planeta Terra é a casa de nós todos e caca vez mais o que acontece num local tem impactos em toda a humanidade. Se todos somos um só povo a integração europeia torna-se uma coisa natural.
Uma posição de esquerda é aceitar esta circunstância e por isso a esquerda não pode ser nacionalista à moda antiga e deve assumir que não aceita nenhuma forma de violência para resolver disputas entre grupos e comunidades.
Ser de esquerda é ser europeu e acreditar que Portugal faz parte de uma comunidade mais alargada de povos que se respeitam mutuamente e ter consciência de que somos todos interdependentes.
Ser de esquerda é aceitar que o poder dos estados nação, dos séculos anteriores, não é suficiente para lidar com os novos problemas políticos, económicos e ecológicos.
Ser de esquerda é também aceitar discutir a organização dos diferentes níveis de poder político e económico:
– Há coisas que deveriam ser decididas por governo mundial – uma espécie de ONU com poderes para impor leis a todos os povos em questões de interesse mundial. A questão é como assegurar a participação de cada pessoa nesse governo.
– Algumas outras questões devem ser decididas pela União Europeia que deverá passar a ter uma Comissão eleita pelos cidadãos europeus e não controlada pelo governos nacionais mais poderosos.
– O países terão poderes específicos, mas menos do que era costume.
– A nível regional e local deve haver uma nova arquitetura de poderes que facilite a participação dos cidadãos e os torne mais responsáveis pela gestão das coisas comuns, mas também garanta a liberdade e o desenvolvimento pessoal de cada cidadão.
A esquerda deveria nas próximas eleições europeias estar a defender coisas como:
– A necessidade de fazer eleições para o presidente da Comissão Europeia;
– Formas de combater a desigualdade entre regiões;
– A harmonização fiscal;
– A mutualização das dívidas públicas como contrapartida da harmonização das políticas orçamentais;
– Horários de trabalho máximos para toda a Europa;
– Políticas educativas que promovam a integração dos emigrantes nos locais onde residem;
– A livre circulação dos cidadãos dentro da Europa;
– A tributação dos ganhos com a especulação financeira;
– O fim dos offshores;
– O reforço das políticas de mobilidade dos jovens estudantes;
– O reforço do ensino das várias línguas em toda a Europa;
– O fim de algumas políticas, nomeadamente aspetos da Política Agrícola Comum que privilegiam umas regiões e prejudicam outras;
– A espionagem feita pelos americanos e também pelos europeus.Redação Gazeta da Beira
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