“Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira” completa e apresenta documentário

Os Cantos às Almas do Purgatório, em Queirã

Ed653_CavaquinhosDVD-01Em 2006, o “Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira” lançava um trabalho em CD (acompanhado de um livro explicativo, da autoria de Joaquim Mendes), em que participaram grupos e/ou personalidades do todo o concelho de Vouzela, ligados à música popular. Aí se aborda a temática dos ‘Cantos’ de âmbito quaresmal, no intuito de contribuir para o “reviver das tradições”, para o recriar de usos e costumes, que “noutros tempos tinham grande rigor” e significado.

Agora acaba o mesmo Grupo de trazer a lume um complemento em vídeo, que em muito irá por certo enriquecer esta vertente do património musical popular, dando-o a conhecer e contribuindo, assim, com um passo importante para a sua salvaguarda.

Com os apoios da Câmara Municipal de Vouzela, da Junta de Freguesia de Queirã e do IPDJ e com um meritório trabalho de realização e montagem de Tiago Ferreira, o documentário divide-se em três partes: Amentar das Almas, Espírito Santo Divino e Os Martírios do Senhor. De acordo com a tradição, este canto iniciava-se em ‘Quarta-Feira de Cinzas’ e prosseguia até Sexta-Feira Santa.

Ed653_CavaquinhosDVD-02Perante uma ténue e mortiça luz nocturna, um grupo de homens (em número ímpar) palmilha os caminhos e suas encruzilhadas de Quintela de Queirã (até perfazer as nove ‘pousas’). Canto em uníssono, qual toada lenta, dolente e melancólica (com uma monocórdica sequência melódica um tanto estranha), porventura a povoar-nos os meandros da nossa memória evocando tempos… que foram…

O “Amentar das Almas”. «Não é temática fácil», como diz Joaquim Mendes, a abrir o DVD. É como que «uma chamada de atenção aos cristãos, para que rezem pelos seus entes queridos» que já partiram: Ó Cristãos que estais dormindo, / Nesse sono tão profundo. / Lembrai-vos das benditas almas, / Que já estão no outro mundo.

Tal como em múltiplas outras manifestações do folclore, do genuíno folclore (do ‘berço à cova’, no dizer de Giacometti/Lopes-Graça), este património mergulha as suas raízes no mundo rural, nada tem a ver com o urbano. Segundo Fernando Lopes-Graça (grande músico e musicólogo português), in ‘A Canção Popular Portuguesa’ (1973), «O homem rústico, em contacto com as forças terríficas ou benfazejas da Natureza, emocionado pelo mistério da vida e da morte e familiarizado com as seculares doutrinas, práticas e símbolos da Igreja, possui um marcado fundo religioso.  A sua religiosidade, simples, directa, revela-se das mais variadas maneiras, reveste-se dos mais heterodoxos aspectos, manifestando-se à margem de subtilezas teológicas, não raro associando as manifestações de um paganismo ancestral aos ritos e alegorias da fé católica, ou resvalando daquelas para estes, com toda a ingenuidade e sem a menor ideia de conflito ou heresia. No plano poético-musical, esta religiosidade primitiva e ‘sui generis’ encontra expressão numa variedade infinita de canções e melodias, que constituem sem dúvida uma das maiores riquezas no nosso folclore. […] Vêm depois, pela Quaresma, aquelas impressionantes ‘Encomendações das almas’, ou ‘Amentar das almas’, cantos nocturnos entoados nas encruzilhadas, em frente dos edículos das alminhas, evidente reminiscência do ancestral culto dos mortos, e que constituem um dos aspectos porventura mais curiosos do nosso folclore religioso: Alerta, alerta,/Vida é curta, morte é certa!/ Ó irmãos meus, filhos de Maria, /Pelas almas do Purgatório, /Um padre-nosso, /Uma ave-maria!».

O “Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira” não poderia escolher melhor data para a apresentação do referido trabalho: Sexta-Feira Santa. No salão-auditório da Junta de Freguesia compareceu assinalável número de pessoas, para testemunhar o lançamento do DVD, com a presença da Vereadora da Cultura (Drª Carla), da Presidente da Junta de Freguesia (Profª Susana) e de outras entidades. E foi perante uma plateia silenciosa e em atitude de grande respeito que teve lugar a exibição de “Os Cantos às Almas do Purgatório”. O trabalho termina apresentando, em cenário bem diferente (a família, à volta da mesa, após a ceia, e sob a conduta da mãe): a recriação da “Acção de Graças”, com a evocação dos Santos/Divindades que mais a propósito estejam, face aos desideratos das suas vidas; uma oração pelas ‘alminhas do Purgatório’.

Ao longo de todo o documentário  se verifica a presença de Joaquim Mendes, a quem se fica a dever, em grande parte, mais esta iniciativa. Releve-se este facto, bem como ter o Grupo, em jeito de posfácio, decidido fechar com: «Joaquim da Silva Mendes – para sempre no nosso coração.»

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