Uma lição de liberdade, 40 anos depois do 25 de Abril
A Gazeta da Beira recorda como é que a região de Lafões viveu a Revolução dos Cravos
Quarenta anos depois da Revolução dos Cravos, a Gazeta da Beira recua no tempo e recorda como é que o 25 de Abril foi vivido em Lafões. Para isso, esteve à conversa com os primeiros líderes dos três concelhos. Jaime Gralheiro, Alexandrino Matos, e Cândido Moreira, que encabeçaram as Comissões Administrativas pós 25 de Abril de São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades, respetivamente, reviveram o dia que marcou as suas vidas e compararam os tempos: passado, presente e futuro. Qual é o Portugal dos nossos dias? Que conquistas trouxe Abril? Que sonhos foram concretizados? Que sonhos foram gorados? O que significa hoje a Revolução dos Cravos? O 25 de Abril pela voz dos seus protagonistas.
“Grândola Vila Morena” era a voz de José Afonso que naquele dia significava mais. Era uma senha que confirmava a há muito sonhada revolução. O Estado Novo chegou ao fim, pelas ruas gritavam-se máximas de liberdade. Os cravos ao peito, a alegria na alma dos muitos que saíram à rua contrastavam com a opressão de décadas, com a voz a um só tom, o tom da ditadura. Era 25 de Abril de 1974. Os capitães depuseram o regime e Marcelo Caetano caiu, nasceu uma nova era que enchia o povo de esperança numa sociedade mais justa. 25 de Abril de 2014. Quarenta anos passaram.
Revivendo Abril
Foi pela rádio que chegou a notícia a Lafões. A partir daquele dia nada seria igual. Jaime Gralheiro há muito que ambicionava esta revolução. Numa família com tradições republicanas e inspirado pelo advogado Abílio Tavares, desde logo trilhou os caminhos da luta pelos ideias de liberdade. Como recorda, “o contacto com esta gente despertou em mim o sentido do outro, o sentido social, a responsabilidade, pelo bem-estar e pela construção de uma outra sociedade que não aquela”. Foi portanto, com naturalidade, que deu continuidade aos trabalhos liderados pelo seu falecido sogro e pelo advogado que tanto admirava. Naturalmente, passou a ser um dos líderes de um movimento que queria uma sociedade diferente. Como explica Gralheiro, “havia em São Pedro do Sul um grupo de gente com coragem e entusiasmo que lutava bravamente, há muitos anos, para que a república sobrevivesse e se implantasse em Portugal um regime democrático.
Quarenta anos depois, Jaime Gralheiro vive a revolução e os momentos que se lhe seguiram com grande entusiasmo. Milhares saíram às ruas para apoiar “o novo Portugal”. Como conta o advogado, “fui para a rua movimentar não só São Pedro do Sul, mas todo o distrito de Viseu. A 27 de Abril de 1974, estive a liderar a primeira manifestação de apoio ao MFA (Movimento das Forças Armadas), em Viseu”.
Foi com pragmatismo que São Pedro Sul se adaptou ao novo sistema político e elegeu os novos representantes. Menos de um mês depois, a 11 de Maio de 1974, o Cineteatro enche “com todos aqueles que quiseram e puderam vir. Encheram todo o cineteatro e ficou tudo à volta cheio de democratas. Aí foi eleita a primeira comissão administrativa.” Se consultarmos a Tribuna de Lafões, do dia 15 de Maio de 74, pode ler-se: “Realizou-se pelas 20h30, com grande assistência uma Assembleia do concelho de São Pedro do Sul, por iniciativa da promotora do movimento democrático de São Pedro do Sul”. Nela “estiveram representantes de todas as freguesias do concelho com a exceção de Pindelo dos Milagres”. Dessa Assembleia, para Presidente saíram dois nomes: Martins da Costa e Jaime Gralheiro. Sendo que o cargo foi assumido pelo segundo, depois de o primeiro ter recusado, por questões profissionais. Jaime Gralheiro em declarações à Gazeta da Beira, faz referência a umas eleições como nunca se tinha feito em São Pedro do Sul. Como defende, “nunca, em São Pedro do Sul, se tinha feito uma eleição direta, com tanta liberdade e com tanta informação”.
Mesmo quatro décadas depois, o dia em que se conquistou a liberdade ainda é o dia mais feliz da sua vida. Como refere Jaime Gralheiro, “se eu não tivesse lutado pela liberdade, o que é que eu tinha cá andando a fazer, estes meus anos só se justificam, porque, em quase todos, lutei pela liberdade”.
Também em Vouzela, a notícia da Revolução trouxe agitação às ruas e alegria. Como recorda Alexandrino Matos, a notícia chegou, num rebuliço, quando um amigo lhe bateu à porta logo pela manhã a anunciar a nova. Uma boa nova para uma grande maioria dos Vouzelenses. A partir daí, o resto do dia e os dias seguintes foram vividos numa grande expectativa, sempre com os ouvidos atentos às informações que chegavam a conta gotas pela rádio. Como recorda Alexandrino Matos, “Num primeiro relance, toda a gente estava pelo novo regime, até gente muito comprometida com o antigo regime parecia ter aderido”.
Neste concelho também o poder mudou de mãos. Como explica o professor, “Na sequência do 25 de Abril, a máquina administrativa do Estado Novo teve que ser mudada. Esta mudança tinha um sinal profundo político e social”. Assim, a 5 de Maio de 74, em Vouzela, realizou-se uma assembleia popular. Como conta Alexandrino, foi “proposto que as pessoas se pronunciassem sobre o lote de cidadãos que poderiam formar esse elenco administrativo e político que substituísse a câmara em vigor”. Dessa reunião, numa primeira fase, saíram 16 pessoas. Seguiu-se uma reunião com a delegação do MFA, da qual saíram as 3 pessoas que constituíram a primeira Comissão Administrativa: O presidente, Alexandrino Matos; professor Mendes e a engenheira Teresa Figueiredo.
Cândido Moreira recorda o 25 de Abril, “como um momento ímpar que marcou a vida dos portugueses”. Como recorda, “Nesse dia, uma Quinta-Feira, só tinha aulas da parte da tarde. Nessa altura ocupava o meu tempo a estudar e a dar as aulas, pelo que apenas dei conta da revolução, no rádio do carro, quando me dirigia de Viseu, onde residia, para Vouzela para dar as aulas. Fiquei radiante, obviamente”.
Entretanto, começou a desenhar-se a substituição dos presidentes das câmaras dos três concelhos de Lafões e Cândido Moreira foi o nome escolhido para Oliveira de Frades, na sequência de uma assembleia eleitoral no edifício, onde funciona uma Escola Primária. Como refere Moreira, “essa assembleia funcionou orientada por dois oficiais do Regimento de Infantaria n.º 14, tendo concorrido duas listas. Depois de alguns acertos, ficou estabelecido que as pessoas poderiam votar nas listas propostas, ou votar separadamente em cada um dos nomes que as constituíam. Feita a contagem fui eu quem teve mais votos”.
Dos três concelhos de Lafões, na altura, Oliveira de Frades parecia ser o mais longe dos ideais da Revolução. Como explica o primeiro presidente da Câmara após o 25 de Abril, “Salazar era considerado como um salvador da pátria. O caciquismo reinava. As pessoas tinham medo e, não obstante a revolução, continuavam com medo. Recordo comprar o jornal Diário de Lisboa e República e ir lê-los para o café e um dia fui avisado de que não deveria ir ler aquilo para lá, porque um dos senhores da terra não gostava. Respondi que também não gostava dos que ele lia e continuei, sendo certo que nunca fui incomodado pela PIDE, a polícia política de Salazar, nem pelos denominados fascistas. Nessa altura, as pessoas costumavam dizer que “para melhor, ninguém vai”, e o medo era enorme. A adesão à revolução foi acontecendo muito lentamente, havendo meia dúzia de entusiastas.”
As prioridades do novo regime
Os novos governos de São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades tinham em comum os valores de Abril, mas tinham em comum, também, as prioridades. A região estava subdesenvolvida e havia muito a fazer. Faltavam acessos; faltava eletricidade, faltava água potável. Faltava quase tudo. Como relata Alexandrino Matos, “mesmo junto à vila de Vouzela, havia “localidades onde nem uma ambulância passava”. Sem dinheiro, foi a mobilização popular e o espírito de entrega à causa colectiva que fizeram o concelho avançar. Como adianta, “no nosso mandato conseguimos resolver quase todos os problemas de acesso”.
A mesma situação relata Cândido Oliveira, “Com a revolução, lembro-me de ter autorizado a construção de um estradão que concluiu a rua da Devesa até à feira. Esse estradão foi feito pelos populares, com picaretas e carros de mão, absolutamente, sem haver dinheiro para tal. O entusiasmo era mesmo transbordante e o caminho acabou por fazer-se, absolutamente de graça”.
A educação e a cultura também passaram a ser uma prioridade. Como explica Jaime Gralheiro, “cedo me apercebi de que a minha vida só tinha sentido se conseguisse levar comigo os mais desfavorecidos.
Da escolaridade mínima à construção de um povo culto
Naquele tempo um dos males do povo era falta de conhecimento, de cultura, era um povo de analfabetos, foi por isso que me dediquei ao teatro”.
Em Vouzela, a situação não era muito diferente. Alexandrino Matos faz referência uma elevada taxa de analfabetismo que rondava os trinta por cento.
Também Cândido Moreira traça o retrato de uma sociedade pouco instruída. Como referiu, “antes da revolução, poucas pessoas estudavam para além da escola primária e algumas só faziam exame da terceira classe. É óbvio que a falta de conhecimento limita os horizontes… entretanto, com a revolução, foi criado o salário mínimo e as pessoas começaram a ter mais rendimentos, a viver um pouco melhor. A televisão começou a generalizar-se, começou a haver mais escolas preparatórias, tele-escolas, a haver mais instrução, e as condições de vida começaram a melhorar”.
A aproximação do povo à cultura foi, de facto, uma das mais importantes conquistas de Abril. Como recorda Alexandrino Matos, “O poder de as pessoas se pronunciarem sobre as suas coisas foi uma mudança enorme, o poder de falar, no fundo a liberdade, num sentido geral. Com o fim do Estado Novo passaram a ter esta facilidade de livremente organizarem os seus clubes, as suas associações, os seus ranchos, sem problemas. Antes, tudo era tido como subversivo”.
A esse respeito, Jaime Gralheiro conta alguns episódios ocorridos no antigo regime. No teatro, “não era nada fácil fugir à censura”; até um texto de Gil Vicente voltou integralmente cortado pelo “lápis azul”. Tudo tinha que ser feito através de inúmeros subterfúgios, a União Desportiva Sampedrense foi um desses exemplos. Como relata o advogado, “a União Desportiva Sampedrense também jogava futebol, mas o mais importante não era isso, o mais importante era a vida democrática e cultural que se vivia. A União funcionava “com uma capa legal para encobrir o nosso trabalho clandestino cultural e político”.
A PIDE e a construção de uma verdade
A verdade, como acrescenta Jaime Gralheiro, deixou de ser só uma. A liberdade trouxe paz ao povo e pôs término ao clima generalizado de medo. Como explica, “no Salazarismo eles é que faziam a verdade, era um regime em todos os sentidos e em todos os lados, nós na nossa própria casa não tínhamos a certeza de que podíamos falar à vontade, porque o nosso pai o nosso irmão podia ser da PIDE. Era o reino da estupidez, da ignorância da maldade, da prepotência.”
A agitação política do Verão de 75
Se a Revolução foram cravos, os mandatos das três Comissões Administrativas estiveram longe de ser um mar de rosas. As três Comissões saíram do poder depois do Verão Quente de 1975.
Em São Pedro do Sul, começaram, à semelhança do que acontecia em todo o país, as crispações políticas. Depois de a comissão administrativa ter sido por duas vezes expulsa da Câmara Municipal, Jaime Gralheiro abandonou o cargo para o qual tinha sido “democraticamente eleito”. “Como referiu, “saí não por reconhecer a autoridade das reivindicações, mas para evitar confrontos”.
Em Vouzela, como constata Alexandrino Matos, “o Governo provisório foi muito difícil e controverso. As pessoas que achavam que tinham alguma coisa a dar e a fazer pelo município, pelo país, tinham vontade de dizer que estavam presentes; as pessoas afectas ao regime, entretanto deposto, não queriam largar o poder. Entre os assuntos mais problemáticos estava a devolução dos baldios ao povo, os quais tinham sido integrados ao património do Estado no âmbito dos serviços florestais. Como acrescenta Alexandrino Matos, “Alguns particulares tinham-se apropriado ou comprado os terrenos a preços irrisórios. Não foi muito fácil, nem muito possível, porque, quando se mexe em determinados interesses, as coisas complicam-se, agudizam-se. Seguiram-se tempos complicados “em que o poder rolava nas ruas”, pesou o facto de a “formação política, praticamente, não existir; A grande massa das pessoas não tinha noção de onde queria ir”.
Também o concelho de Oliveira de Frades teve o mesmo destino. Como conta Cândido Moreira. “o desempenho das funções de Presidente da Câmara eram desempenhadas a tempo parcial e recebia uma verba mensal, a título de despesas de representação, no valor de 2.000$00 (dez euros). Comecei as funções em maio de 1974 e estive no cargo até ao 25 de Novembro de 1975, tendo saído delas pelo meu pé, penso que com desalento da população”.
Os valores de Abril e os dias de hoje
O 25 de Abril trouxe sonhos, trouxe esperanças numa sociedade mais justa. Quarenta anos depois qual é o regime que temos?
Para Jaime Gralheiro, não é muito diferente do Estado Novo. Como defende, “O sistema antes do 25 de Abril é isto que temos agora. Menos uma coisa que é importantíssima: que é a liberdade. De resto… Tínhamos esta fome, tínhamos este aperto, tínhamos esta falta de perspetivas, tínhamos uma guerra e não tínhamos liberdade. Neste momento, não temos guerra e temos liberdade, mas do ponto de vista social não verificamos diferenças: as pessoas a passarem mal, a ter que comer na sopa dos pobres, a ter que andar de mão esticada…”
Também, Alexandrino Matos esperava mais, como explica, “Sinto-me desiludido com muitos aspetos. O facto de se poder ganhar a liberdade já foi muito bom. É preciso, agora, ganhar outras batalhas: a batalha da economia, por exemplo… Perspetiva-se um futuro complicado. Seria preciso um novo 25 de Abril, não só a nível de Portugal, mas do mundo inteiro”.
Para Cândido Moreira, o país dos nossos dias fica muito aquém das expectativas. Com defende, “penso que já se tornaria imperioso fazer uma nova revolução e entregar o poder a pessoas dignas, sérias, competentes, que soubessem defender os interesses das populações mais desfavorecidas e não estivessem ao serviço dos ricos e poderosos, nem dos grandes interesses capitalistas internacionais. Ao fim de contas, as pessoas estão cada vez mais pobres e, nos últimos tempos, tem-se verificado um enorme aumento das grandes fortunas. Uma nova revolução, feita por gente de bem, por políticos sérios, devolveria ao povo a alegria de viver e traria de novo a esperança. Abril sempre!”.
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