As autárquicas francesas e uma entrevista de Durão Barroso
Manuel Silva
Nas recentes eleições autárquicas francesas, o Presidente Hollande e o Partido Socialista registaram uma clamorosa derrota, que determinou a queda do governo, sendo nomeado um novo primeiro-ministro.
A direita, após o desaire de há dois anos, com a derrota do então Presidente Sarkozy, obteve uma grande vitória . A extrema-direita (FN), agora liderada por Marine Le Pen, filha do primeiro líder da organização, foi agraciada com um dos seus melhores “scores” de sempre.
Estes resultados devem-se a três factores: o não cumprimento do prometido em campanha por Hollande, o prolongamento da crise, originador de desemprego, queda de poder de compra, empobrecimento e aumento da criminalidade, bem como a construção de uma Europa federal de forma vanguardista e anti-democrática, fazendo lembrar engenharias sociais e construções do ”homem novo” passadas à História, a qual está a provocar o renascimento e o crescimento do nacionalismo.
François Hollande, que era em 2012 a grande esperança da esquerda europeia, traiu (é esse mesmo o termo) quem nele acreditou, passando, no poder, a defender uma política impopular idêntica à dos neo-liberais, sob a batuta de Angela Merkel. A consequência da sua vitória nas presidenciais assente numa mentira foi a tremenda derrota nas autárquicas.
O actual governo português venceu as últimas eleições legislativas também com base em mentiras. O PSD e o CDS aplicaram no poder o contrário do que haviam prometido em campanha. Essa “habilidade” e as péssimas consequências, no plano económico –social, da mesma, estão na origem do descrédito do executivo junto da população.
O maior partido da oposição, o PS, tem criticado a política do governo Coelho-Portas. No entanto, ainda não definiu uma linha de rumo, caso vença – o que é o mais certo – as próximas legislativas.
O partido de António José Seguro começa a afirmar não poder recuperar no curto prazo o valor dos salários e pensões anterior aos cortes do governo PSD/CDS, o que constituirá um sinal de que a sua vitória poderá, como aconteceu com Hollande na França, mudar alguma coisa para tudo continuar na mesma.
Em entrevista recentemente concedida à SIC e ao “Expresso”, o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, embora afirmasse não ser candidato a Presidente da República, defendeu uma candidatura apoiada pelos partidos do chamado arco governamental (PS, PSD e CDS) em 2016, no que foi apoiado, passados poucos dias, em artigo escrito no “Público”, pelo liberal João Carlos Espada, seu amigo, também dissidente do maoismo, embora de uma organização (UDP) que assassinou Alexandrino de Sousa, camarada (no MRPP) e colega de curso de Barroso.
Uma candidatura como a defendida por Durão Barroso amarraria o PS à política actual. Caso saísse vitoriosa, lá continuaria a austeridade por uns bons anos. Se o protagonista da candidatura fosse o próprio Barroso, a sua acção na C.E., em clara submissão a Merkel, é demonstrativa disso mesmo. Este senhor continua a caracterizar-se pelo tacticismo e o oportunismo, colando-se sempre ao que pensa “estar a dar”. Já assim era no MRPP, que abandonou em fins de 1976, quando se convenceu que “a classe operária, liderada pela sua vanguarda, o MRPP, e pelo camarada Arnaldo Matos” não tomaria o poder.
Embora as eleições presidenciais ainda venham longe, em 2016 deverá surgir uma candidatura forte, democrática e patriótica, apoiada por todas as forças de direita, centro, esquerda e independentes, oponentes da actual política neo-liberal empobrecedora, defensora do crescimento conjugado com a igualdade de oportunidades, a solidariedade, a luta contra a pobreza, e que se proponha negociar a reestruturação da dívida, com vista a libertar recursos para a criação e distribuição de riqueza.Redação Gazeta da Beira
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