Reportagem (Ed. de 2014)

Alforges de S. Frei de Gil querem chegar ao mercado ainda este ano letivo

 

Doces criados pela Escola Profissional de Vouzela iniciam processo de registo

DSC00706

Nasceram há poucos meses e são já um sucesso. Os Alforges de S. Frei Gil, criados pela Escola Profissional de Vouzela, têm conquistado o paladar de quem prova. Agora, inicia-se um processo de registo. Os doces querem chegar ao mercado ainda este ano letivo.

Surgiram a quando das comemorações do Foral de Lafões, em Vouzela, no final e 2014. A recetividade foi tão boa que levou a Escola Profissional a querer dar um novo passo. Como explica José Lino, “as pessoas gostam e perguntam onde é que podem adquirir, o doce está completamente aprovado, há recetividade pelo que consideramos que há sustentabilidade para podermos comercializar o doce, podemos dar este passo com segurança”.

A escola inicia assim um processo de registo do doce. Até ao próximo mês de junho o Alforge de S. Frei Gil quer estar no mercado. “É um objetivo ainda para este ano letivo. Com isto, queremos divulgar o nome da Escola e pôr os Alforges nas pastelarias, nas estações de serviço, em todos os locais de venda…”, explica o diretor pedagógico.

 

Alunos participaram no processo de criação

Maria Alexandrina Cunha é a autora deste novo doce. Para isso contou com uma turma de restauração do 12.º ano que pôs as mãos à obra por este projeto. Com esta iniciativa, a formadora da Escola Profissional de Vouzela quis promover a Escola, mas, sobretudo, aproximar os alunos da região onde vivem. “É muito bom passar esses valores aos nossos alunos, porque, uma boa parte deles, não sabe valorizar a cultura gastronómica da nossa região que é muito boa e vasta. Para eles poderem valorizar, precisam de conhecer. Este projeto é, portanto, também uma maneira deles (os alunos) interiorizarem esses valores.”

 

Alforges já têm projeção internacional

Os Alforges de S. Frei Gil, segundo Maria Alexandrina Cunha, estão a ter “um aproveitamento muito bom, temos tido várias encomendas e pedidos”. O doce também tem sido promovido em algumas iniciativas. A última foi este mês, no Xantar: Salão Internacional de Gastronomia e Turismo, na Galiza, Espanha que, como a Gazeta da Beira avançou na última edição, contou com a participação da Escola Profissional de Vouzela. “Teve uma saída excelente, tivemos sempre três alunos a trabalhar só nisto, o produto esgotou muitas vezes”, relata a formadora.

O doce ganha assim uma projeção internacional, numa altura em que se inicia o registo. Uma ideia que agrada Maria Alexandrina Cunha, “é uma maneira de divulgarmos a Escola e a nossa região e, também criar alguma riqueza… já existe ficha técnica, temos todas as condições para iniciar este processo”.

 

Doce foi buscar os sabores tradicionais de Lafões

Quem olha não tem dúvidas. É um doce que quis homenagear a história do concelho em que nasceu. “Quisemos remontar às origens, uma vez que, na altura estávamos a comemorar os 500 anos do Foral de Lafões escolhemos que o doce teria a forma de um alforge. Naquele tempo, as roupas não tinham bolsos eram, portanto, usados os alforges, ainda hoje, alguns ranchos folclóricos usam. Quanto ao nome S. Frei Gil é uma homenagem ao padroeiro de Vouzela”, relata Maria Alexandrina Cunha. O mesmo acontece com quem prova. Os alforges de S. Frei Gil foram buscar os sabores tradicionais de Lafões. “Escolhemos usar os produtos da nossa região. A massa é composta por dois cereais da terra: o trigo e o milho e duas gorduras, uma muito antiga que é a banha de porco e a margarina vegetal; já o recheio é a base de ovos e frutos secos da nossa região”, acrescenta.

——————————————-

Mais reportagens:

Cantar para manter a Tradição

Da Serra da Arada para o Mundo

•Conheça a história de dois emigrantes sampedrenses

•Serra da Freita tão perto e tão longe/ outras reportagens

Bons negócios, também nascem em tempos de crise (Ed. 643)
Património, Paisagem e Gastronomia (Ed. 642) e outras

Sessão de Atribuição do prémio Miguel Portas 2016

30 de Abril de 2016, Auditório 3, Fundação Calouste Gulbenkian

Intervenção de José Manuel Rosendo, jornalista da Antena 1 na Sessão

 

José Manuel Rosendo

 

Meus amigos, boa tarde…

Antes de vos falar do que me foi sugerido, da crise dos refugiados, permitam-me algumas palavras, apenas porque acho que sim.

Não era amigo de Miguel Portas. Mantínhamos aquela saudável distância entre o jornalista e o político, mas não lhe perdia o rumo das palavras.

Quando o Miguel falava ou escrevia, sentíamos que não havia truque. As palavras do Miguel não precisavam de interpretação nem de explicações adicionais.

Também por isso não senti a necessidade de ponderar a beleza das palavras. Apenas escolhi palavras sinceras.

Tenho imensa saudade de uma noite num hotel em Jerusalém Oriental, já com o bar fechado, em que continuámos, noite fora, a encher o cinzeiro, a bebericar o nosso whisky e a debater os problemas do mundo…

Lembro-me também de um dia numa Beirute parcialmente destruída pelos bombardeamentos israelitas… lembro-me de um sorriso que surgiu entre a multidão durante uma manifestação contra a guerra… e lembro-me de ter pensado: mas o que é que ele anda aqui a fazer?

Guardo com carinho a dedicatória colocada no Labirinto: “só quem anda pelas guerras sabe porque é que elas se devem evitar”.

E tenho a certeza que mais Périplos houvesse e não teríamos hoje tanta gente espantada e assustada com a vaga de refugiados que bate à porta da Europa.

Porque esta é a Europa que não sabe olhar para o Mediterrâneo.

Tenho a certeza que uma União Europeia que aproveitasse metade das ideias generosas do Miguel seria uma União Europeia muito mais apta a responder aos problemas que hoje se colocam…

Tenho a certeza que seria uma União Europeia mais nossa.

Seria uma União Europeia mais solidária, mais justa, mais generosa e acima de tudo mais humana.

Uma União Europeia errada, sobre a qual nunca ninguém nos perguntou alguma coisa, só pode dar respostas erradas.

A actual crise de refugiados… crise de refugiados dizemos nós, porque para os refugiados é uma crise de sobrevivência… a actual crise de refugiados é uma crise que impõe que saibamos tratar o outro com dignidade, porque se o não fizermos é a nossa própria dignidade que está em causa.

Ser refugiado é pegar nos filhos pela mão, é arrumar a trouxa, e começar a fazer caminho. É fugir da guerra e de um sítio onde a morte é quase certa. Quem nunca ouviu uma bomba a cair por perto não consegue imaginar. Quem nunca ouviu o baque surdo da explosão de um carro carregado de explosivos não consegue imaginar. Quem nunca sentiu o sopro da deslocação de ar não consegue imaginar. Quem nunca ouviu o assobio de uma bala não consegue imaginar. Quem nunca viu corpos estropiados, não consegue imaginar. Quem nunca viu crianças mortas a serem retiradas da cave de um prédio bombardeado, não consegue imaginar.

Muitos dos refugiados que nos batem à porta já viram grande parte de tudo isto.

Há poucos dias, a Rainha da Jordânia, de origem palestiniana, alguém que não deve ter falta de conhecimento sobre o drama dos refugiados, visitou o campo de Kara Tepe, em Lesbos, e foi muito directa na mensagem: ninguém consegue entender a magnitude desta crise até estar frente a frente com os refugiados.

Por esta hora, em mais esta crise, talvez já tivesse encontrado o Miguel algures, a dar a cara e a estar frente a frente com aqueles que fogem da guerra e das consequências da guerra…

Talvez em Gevgelija… Talvez na ilha de Lesbos…

Estar na fronteira da Grécia com a República da Macedónia é ver passar gente de todas as idades. Gente de ar fatigado e com um olhar que se estende até lá à frente à procura de um destino. Gente que arrasta chinelos e sapatos deformados pela caminhada… gente que leva gente em cadeira de rodas e por vezes às cavalitas porque ninguém fica para trás… gente que se calhar tem alguma coisa para nos ensinar quando se fala de família…

Estar na fronteira de Gevgelija é ver homens que chegam tão desorientados que nem sabem a direcção de Meca. E perguntam… não perguntam por Meca, perguntam por Saudi, Saudi… Arábia Saudita.

Estar na fronteira é ver a polícia, muitas vezes de cassetete ligeiro…

Na Grécia, Idomeni é o campo mais próximo de uma linha de esperança chamada República da Macedónia…

Em Atenas, no porto do Pireu, há centenas de pessoas a dormirem no chão dentro dos terminais dos ferrys onde a segurança do porto tenta evitar a captação de imagens…

Na ilha de Lesbos, há um grupo de quase 200 homens a viverem à beira mar em pequenas tendas sem apoio de ninguém… apenas os Médicos Sem Fronteiras por lá passam de vez em quando

Ainda em Lesbos, o campo de Mória transformou-se numa prisão de onde os refugiados não podem sair. Estão lá cerca de 3 mil. Problema maior: os refugiados não tinham apresentado pedido de asilo na Grécia com a esperança de que pudessem passar para outro país para então aí fazerem o respectivo pedido. Com a entrada em vigor do acordo entre a União Europeia e a Turquia, todos estão agora a tentar pedir asilo… o problema é que o acordo estabelece uma distinção entre os que chegaram antes e depois de 28 de Março, a data da entrada em vigor desse acordo. Algumas ONG’s estão a denunciar o que tem todo o aspecto de uma aldrabice que brinca com a vida das pessoas: os que chegaram antes da entrada em vigor do acordo, porque não pediram asilo e porque não há registo da data da chegada, estão a ser considerados como se tivessem chegado depois de 28 de Março. É meio caminho andado para a deportação para a Turquia.

Com todos os defeitos que o acordo tem, pensar que ele resolve alguma coisa é pura ingenuidade.

A guerra na Síria está com intensidade redobrada. No Iraque já se notam fortes sinais de outras guerras que vão resultar da guerra actual.

Para além disso, quem ganha dinheiro com o desespero dos refugiados rapidamente encontra outros caminhos para os fazer chegar à Europa.

Logo depois da visita do Papa Francisco a Lesbos, centenas de refugiados morreram no mediterrâneo quando tentavam chegar a Itália…

Ontem surgiram notícias de mais um naufrágio. A Europa faz que não vê… enquanto morrerem no mar não são problema para a Europa.

Há muros em Ceuta, em Melilla, em Gaza e na Cisjordânia, no Egipto, na Tunísia e na Líbia, em Calais, na Hungria, na Sérvia, na Bulgária…

A Áustria quer criar uma barreira na fronteira com a Itália e já aprovou alterações à lei de asilo…

A União Europeia demorou a tomar decisões quando os refugiados nos bateram à porta em grande número. Ao contrário, Bruxelas fervilhou de reuniões quando Grécia e Portugal negociavam os chamados programas de resgate. Garanto que até as redacções estavam baralhadas: reunia o Eurogrupo; reunia o Ecofin; reunia a Comissão; reunia o Conselho Europeu… quando não havia reuniões havia teleconferências. O problema era o dinheiro. Quando se tratou de refugiados não houve qualquer pressa.

Redação Gazeta da Beira