M. Guimarães da Rocha (Ed. 682)

Crónicas

O CHEIRO DA COR

1. Aquela intolerante insónia obrigara-me a recorrer ao apoio de um bomazepam, que me deu um sono regalado até às oito da manhã. Levantara-me ainda meio ensonado e, ao abrir a porta do quarto recebi nos olhos, de chapada, a forte luz matinal dos dias de Verão. Havia no ar uma sensação de alegria acolhedora, que me recordava a juventude provinciana, onde a natureza me brindara sempre, com explosões de cor cheiro e sabores inesquecíveis. No pequeno corredor do apartamento apareceu a minha  mulher, a quem cumprimentei com sonoro “Bom Dia”. Respirei fundo, e sorvendo o ar fresco das varandas disse-lhe.-“ Que bom. Cheira aqui a verde!” Ela respondeu com sonora gargalhada:-“as cores não têm cheiro, são cores”!

Não, não! Há cores que têm cheiro bem marcado, quer queiras quer não. Não me digas que neste momento não cheira a verde!?- Minha mulher sorriu e só teve tempo para dizer:-“ deve ser porque eu estou a regar as plantas e abri as janelas da varanda para o parque.”

E com um sorriso continuou calmamente a rega das flores, com o mesmo carinho com que trata toda a família.

Não têm cheiro?! Pensava eu! Mas como é que eu sinto este cheirinho a verde? Pensou e lembrou-se de imediato do fenómeno de “sinestesia“ já há muito comentado:-“um estímulo provoca um trajecto sensorial usual, mas em certas condições, pode seguir um trajecto diferente” e exprimir-se com outras características. É o caso da cor cheirar ou ter sabor!

Sorrindo do que acabara de recordar, tive uma posição negativa à explicação dada e, enveredei mais para a forma associativa do estímulo inicial. Para mim era fructo das recordações de infância, onde a Primavera penetra fundo no verde e nos cheiros que as chuvas trazem á terra, a despertar em vegetação após o longo Inverno. Pensei mais e constactei que os cheiros podem ter também sabor e mesmo estar ligadas a certas personalidades e até á idade, etc. Fiquei com a sensação de estar perante um “tipo de análise combinatória entre os cinco sentidos do homem!”

O Povo na sua linguagem diária parece querer confirmar as sinestesias:-este é um rosa velho, aquele é um verde desmaiado, este um azul escuro. E vai mais longe com imagens de tranquilidade quando diz “está tudo azul”, ou de preocupação ao afirmar “sorte negra” ou de beleza “ouro sobre azul”, e outras afirmações mais bizarras e coloridas, cheirosas e saborosas, que fazem parte do seu labor diário.

E os autores confirmam-no transformando a cor em vivências de ódio, de amor, de ânimo, de raiva, alegria, ligando mesmo a cor às profissões, e aos actos solenes oficiais ou religiosos e de poder. A batina do Padre, a toga do Juiz são negras e a mesma cor nos acompanha durante a última viagem na Terra a caminho do Além. A cor é poder! Mas também é segurança, ”escrito, ali, preto no branco “, ou medo “estava amarelo de medo”, ou de fúria “vermelho de raiva”, ou de esplendor em “azul celeste”, ou “vermelho incandescente”. Pode ser também a transmissão segura de premonição de desgraça em “Negro como a noite” “escura como breu”!

O vermelho cheira a sangue, a calor da forja, a excitação explosiva de amor ardente, o azul cheira a mar e dá tranquilidade, repouso e meditação! O amarelo cheira a sol e Verão, mas também a uvas nas vindimas e vinho fervendo nas pipas, o branco cheira ao nada, á beleza inatingível e à pureza. Já o preto cheira a morte e a má sorte.

 

2.Estava eu meditando sobre o cheiro da cor, a sinestesia e a capacidade associativa, quando a televisão inundada de cor me informa que a crise da Europa, isto é, a crise Grega caminhava para um final feliz. Será possível? Como?!- Tsypras cedeu! Cedeu a quem? Porquê? Cedeu à força do capital! À força do Euro! À força da realidade que o “Norte!” impõe, colocando “padrões” no solo Europeu, como os nossos navegadores faziam nas descobertas, há medida que a moeda forte a todos vai obrigando a ceder.

É o realismo dizem os conhecedores e avisados, é o fim da utopia, dizem os pragmáticos encolhidos, é uma “merda”, dizem os mais revolucionários e mais ousados.

E eu penso, talvez erroneamente, porque utilizo mais o coração que o encéfalo, que tudo é mais complicado do que aquilo que parece ser!

E o locutor continua a informar de tudo e a transmitir opiniões quase contraditórias de outros, que denotam perfeitas, diversas orientações políticas, até que, um pragmático, informado e avisado, faz a pergunta:- “se vamos ter terceiro empréstimo a conta final fica próximo dos quatrocentos mil milhões de Euros?!-Como e quando vão os Gregos pagar a dívida?-Estamos a brincar com o fogo…”Cuidado, muito cuidado.”

Rememoro que a chamada “Civilização Ocidental” (que eu já não sei bem o que é?!) começou na Grécia, e os Gregos não são parvos! Vejam se entendem bem esta premissa para não ficarem admirados quando se desencadear outra crise pior que a de 2011!

Confesso que foi isto que me ficou no ouvido, me desencadeou uma série de interrogações a que não sei responder e fez avivar a minha memória.

Revejo de imediato a “Grécia Antiga”, mas também a recolha e asilo actual, dos milhares de refugiados do Mundo árabe em ebulição.

Relembro também, a última guerra com a Turquia, os navios de guerra, de aviões e tanques e, variado material pesado e, munições que foram adquiridas, ao Ocidente…

Os Gregos tinham uma das boas frotas de pesca do Mundo aí pelos anos oitenta, que foi desbaratada aquando da união à Europa e depois ao Euro! Tudo “compensado” pelos largos “Fundos Comunitários” com que a Europa inundou alguns países, o mesmo acontecendo à frota pesqueira portuguesa!

Muitos de Nós vêm ainda “Onassis e Maria Calas”, nas suas festas exuberantes que preenchiam as folhas das revistas da especialidade, bem como outros famosos armadores Gregos, que pareciam dominar a construção de navios a nível Europeu.

Recordei-me do abandono dos retalhados solos da Grécia por muitos agricultores, sob o pretexto de falta de rentabilidade, compensados também pelos “euros” da “União Europeia”.

Esmagados pelos mesmos conceitos com que desmantelaram a agricultura, reduziram também da indústria quase a nada, e esta desapareceu ou foi vendida a estrangeiros.

Lembrei-me também que estas pessoas se deslocaram em grande número para Atenas, que hoje é visível e palpável na complexidade urbanística existente.

Recordei-me também que tudo se processou sob regímenes democráticos, eleitos pelos Gregos, depois de 1974!

Tal como na maioria da Europa, ninguém foi consultado sobre a entrada para a União e muito menos para o Euro! Ninguém consultou o povo, pois os benefícios eram evidentes, pensavam “Eles”!

Saltou também aos meus olhos a posição geoestratégica da Grécia, tão exuberantemente notada durante a Guerra Fria, e a sua exaltação na OTAN!

Os Gregos são um povo antigo cheio das virtudes e defeitos de todo o Ocidente, mas não podem ser todos um conjunto de aldrabões e vigaristas, como alguns jornais e “internetes” pretendem fazer entender. Não acredito em “defeitos genéticos sociais”, de países ou regiões, seja qual for a sua geografia, história ou evolução. Temos que arranjar outra explicação verdadeira e real, que não cheire a incapacidade ou aos medos que certas mudanças costumam trazer.

Relembro que já há mais de cem anos o nosso grande Eça de Queirós, no seu livro “CONTOS” retractou os Gregos impiedosamente assim:

– ”Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se facilmente o hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêm, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco. Pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon. Mas depois de os ter frequentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda da velhacaria, que eles têm deixado desde Esmirna a Tunes, os outros que se vêem provocam, apenas, estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco, cruzar fortemente os braços sobre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechaçar a escroquerie. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que emigra para as escalas do levante, é uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso.”-

Sob a mais elementar das lógicas, não poderei aceitar esta generalização, mesmo vinda do nosso grande Eça de Queiroz, com mais de cem anos de idade, portanto isenta da má-fé de muitas que hoje por aí pululam.

E a televisão num daqueles super-extensos noticiários, continuava a relatar o novel acordo, que incluía o pacote das medidas exigidas, que ninguém vai certamente poder cumprir.

Vamos ter de novo o Eça de Queiroz a ter razão dentro de um ou dois anos, juntando-lhe o anátema da falta de cumprimento dos acordos internacionais.

Pensando bem sobre o resultado real destas imensas negociações, fico com o sabor amargo de que não se tratou duma negociação, mas sim de uma imposição. Deus queira que eu esteja enganado. A ver vamos, como dizia o cego!

 

3.Talvez influenciado pela sinestesia ou “associativismo” da cor, já dei a este acordo um sabor amargo e pensando bem, realmente os acordos não têm sabor. Ou terão? Para quem nos tem que cumprir sabem a fel; nós que o digamos, pois já há quatro anos que lhe “cheiramos o sabor”!

Mas voltando às sinestesias, misturando-as com os acordos Europeus, fico com a sensação de medo e por mais que me queiram convencer do contrário, este acordo entre a União Europeia e a Grécia tem cor e é uma cor bem negra, escura como breu, com sabor amargo e uma sensação olfactiva nada digna da perfumaria Europeia!

Lisboa,22 de Julho de 2015

P.S.- Aproveito a ocasião para agradecer a paciência dos meus leitores, informando-os que vou de férias, durante uns tempos. Para todos, os meus maiores agradecimentos e votos de bom descanso. Obrigado.

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Redação Gazeta da Beira