M. Guimarães da Rocha (694)

SALTOS ALTOS (Crónica Mundana)

SALTOS ALTOS

(Crónica mundana)

Uma coisa, hoje tão banal, como os saltos altos, levam-me a pensar muito, sobre a sua origem, função e manutenção, em moda permanentemente há muito mais de cinquenta anos!

Como terão nascido e porquê?

Confesso que não sei com certeza absoluta a sua origem, e muito menos a data do seu nascimento. É que não é algo que seja decretado ou inaugurado, por Reis ou por qualquer Ministro, e como tal a sua origem, que não ficou registada perde-se no tempo. É mais ou menos o que sucede com os pastéis de nata actualmente, que ninguém regista a patente, mau grado as muitas recomendações, do bom e oportuno apoio estatal que têm tido, e da delícia que encerram.

Voltemos aos nossos arguidos saltos altos:- Como terão aparecido e porquê?

A resposta não pode ser segura, mas carregada de ignorância; vou tentar expor como deve ter sido. Sei que o assunto em si não tem importância nenhuma, mas por pura curiosidade, vou tentar bisbilhotar como é que apareceram, e quando, e porquê?

É que, como médico arrepia-me ver todas as “belas” da actualidade penduradas naquelas alturas, agredindo os pés, os joelhos, a bacia e a coluna, duma forma estóica e voluntária, como se fosse uma promessa ao Deus da Beleza, da estética, ou do amor! É que não há ninguém que não saiba, que todas as agressões têm um custo a pagar mais ou menos tardiamente!

Como observador interessado do sexo oposto, tenho que concordar que o uso inteligente dos saltos altos, torna a mulher mais sexy. Uma perna bonita fica realçada em desenho apetitoso, quando cavalga em saltos altos. Estes provocam uma moderada inclinação da bacia que com a atitude compensatória da coluna, tornam exuberantes mesmo os seios mais delicados e envergonhados.

Alguns autores chegam a afirmar a hipótese de que, os saltos altos ao elevar o calcanhar, obrigam a um controlo instintivo do equilíbrio do corpo, com contracção muscular das pernas, coxas, e principalmente dos variados músculos da bacia e que estes ajudariam muito nos apetites sexuais!

Cientificamente não passa duma hipótese, mais ou menos ousada, mas que esteticamente estes apetites descambam com uma bem torneada perna, assente em saltos bem altos, isso parece ser aceite pelo comum dos mortais. Mas aqui a “psique” é que comanda a situação, como em quase tudo na vida!

Mas voltemos aos saltos altos. Como raio é que apareceram e se divulgaram?

São variadas e por vezes contraditórias as teorias explicativas, o que quer dizer que a resposta é complicada e não totalmente segura, e se perde nas brumas do tempo.

Eu vi exposto no Museu do Cairo calçado já com saltos, retirados de tumbas do Antigo Egipto, isto é com mais de 2.000 anos! – (É certo que os saltos eram pouco elevados)

Na Grécia Antiga ”Aeschylus”, dramaturgo, usava nas suas peças de teatro, saltos em plataformas de diferentes alturas, de acordo com a posição social das personagens representadas!

Aqui está como as classes sociais se distinguiam pela estatura, e quando esta não era a necessária, aí vão uns “sapatos em plataforma” para elevar a personagem à altura da classe social encarnada na representação.

Pensa-se que as plataformas seriam de cortiça, por razões de peso, como é evidente.

O engraçado é que passaram séculos e séculos e nós aí temos os sapatos em plataforma, feitos fundamentalmente em cortiça, (!) ou materiais plásticos recentes, de cores variadas! Mas a cortiça tem resistido bem ao tempo e provavelmente ainda ocupa uma posição de destaque na fabricação de plataformas para sapatos!

A “Estatura” ainda é importante na visão que o Povo tem dos seus “Governantes e Generais”. Penso que a razão será de ordem estética e não cerebral, pois então a possibilidade de erro seria muito mais elevada.

Penso que esta distinção associada à altura, é mundial, pois li algures, que o Imperador Hiroito, de baixa estatura, chegou a usar plataformas de 30 (!) centímetros em cerimónias oficiais. A ser verdade é admirável, se pensarmos que este Imperador faleceu há poucos anos.

Diz-se também, que no mesmo Japão as cortesãs usavam “tamancos” com 15 centímetros e mais!?

O mesmo se diz das “odaliscas” e dos haréns no Oriente Médio, mas as informações por razões, óbvias têm pouca credibilidade.

Já na China Antiga, além dos “martírios” do pezinho pequeno, o problema da estatura era colmatado com sapatos plataforma, com elevações que podiam variar entre os 15 e os 40 centímetros, (!) o que me deixa muitas dúvidas sobre a veracidade do descrito.

Mas deixemos Oriente e regressemos á Europa dos séculos XIX/XX. Acompanhemos o esforço que os artesãos de sapataria fizeram para satisfazer a vontade de elevação da estatura das mulheres nas diversas épocas, procurando fazer evoluir a tecnologia do Salto Alto. É que a moda dos saltos altos, parece que saiu dos palácios Reais, o que é de admirar dadas as sais de balão bem armadas, que quase sempre escondiam o delicado pezinho.

Catarina de Médicis é apontada com a desencandeadora desta moda, quando se tornou Rainha de França ao casar com Henrique 1º. Afirma-se que teria trazido de Itália, sapatos de salto alto no seu “bragal”, que usaria com regularidade.

A Corte Feminina, copiou de imediato a moda, á qual parece que até CASANOVA terá feito referencia! Já nesse tempo os sapatos de estilo vieram de Itália, trazidos por uma Rainha!

A tradição Italiana no sector do calçado, vem de longe no tempo, impondo estilo e inovação. Actualmente Portugal e França batem-se em pé de igualdade, neste tipo de moda, o que é de admirar, dada a antiguidade e sólida evolução do conhecimento dos sapateiros Italianos.

Enquanto na Corte de França se adoptava o Salto Alto, na Inglaterra do Século XVll, as  “mulheres que atraiam os homens para o casamento”, através  do uso de saltos altos(?) eram punidas.!!

Mas a moda era imparável e progressivamente foi invadindo a Europa e passou às Américas.

No século XIX os Americanos do Norte imitaram os sapatos usados nos “bordéis de Paris”, onde os clientes “tinham preferência pelas prostitutas que usavam os Saltos Altos”.

Fábricas de sapatos como hoje as conhecemos não existiam ainda, e tudo era executado a pedido do cliente.

Com a evolução tecnológica desse Século, rapidamente aparecem as máquinas para produzir sapatos em serie. Parece que, surgiram inicialmente na Nova Inglaterra (U.S.A.), seguindo-se  a França e Itália, como  seria natural. Eram sapatarias industrializadas, com apoio do que hoje chamaríamos “designers” que eram famosos e fazem parte da “História Mundial do Calçado”.

O mais referido à época foi “Worth” que tinha fama de calçar toda a Realeza da Velha Europa. “Pinet” criou um novo salto nos finais do século XIX, mais fino que o Luiz XV e, a partir de então, muitas mais inovações foram invadindo o mercado com sucesso, apoiados em estilistas de sólida formação estética e técnica, transformando progressivamente o calçado numa “obra de arte”. No “Metrpolitam Museum” de Nova York, os estilistas de calçado têm lugar de destaque. Pietro Yanturni segundo alguns foi o mais caro estilista de calçado do Mundo!

Mas foi positivamente depois da Primeira Guerra Mundial, que todo o calçado iniciou a sua difusão. O aparecimento do cinema e o desenvolvimento de todos os meios de comunicação, fizeram explodir todo o processo de conhecimento sobre os sapatos, o mesmo sucedendo com toda a problemática humana.

Com o desenvolvimento impressionante da industria cinematográfica, (desde o preto e branco, à difusão a cores, do acompanhamento ao piano dos primeiros filmes mudos, até ao aparecimento de som estereofónico!) as “Estrelas de Cinema” passaram a “Divas Mundiais”, indicadoras da moda global e, em Hollywood as principais vedetas exibiam os seus guarda roupas acompanhados de 100/200/300 e mais(!) pares de sapatos, escolhidos de entre os mais famosos estilistas.

Entretanto, os “Saltos Altos” foram sofrendo uma segura evolução, desde  os pinos de aço revestidos normalmente a couro, até ao “STILETTO” que impõem já apurada tecnologia, e os estilistas de calçado foram ganhando fama e respeito ao nível mundial. As revistas de moda impressas a cores, em papel bem diferenciado, mostravam os sapatos de todos os estilistas (S. Farragano; R.Vivier; Miler, ETC.) estimulando o desejo em todas as mulheres do Mundo, para a utilização dos mesmos. Os Saltos Altos passaram a ser a expressão de feminilidade mais exuberante e os seus  “designers”, artistas consagrados, pagos a peso de ouro!

Actualmente todas as mulheres conhecem os nomes dos estilistas que mais se adequam á sua personalidade e conceitos de estética.

A Plataforma clássica, ainda tem lugar seguro com muitas variantes e, é claro com muitas cores e formatos sendo hoje popular em todo o Mundo. O “Stiletto”, mais usado em  festas,  faz a mulher ganhar uma feminilidade agressivamente realçada.

Quanto ao efeito teórico de estimulação de apetites sexuais, provocado pelas contracções dos músculos da bacia, devido ao uso dos saltos altos, nada ficou provado, dadas os múltiplos factores que intervêm no processo…

Será um “Mito”, mas um mito assente no realce da estatuária feminina…

——————————————————————————————————————

Mais artigos

PODIA SER UM CONTO DE NATAL
APELO MUITO URGENTE A TODA A POPULAÇÃO

DIETA COM EMAGRECIMENTO ASSEGURADO

Ela aí está, plena de força, em flor, mostrando toda a sua plenitude…A DEMOCRACIA
O cheiro da côr
Homenagens da Câmara S. Pedro do Sul
O “DRAMA” OFICIAL DA LÌNGUA PORTUGUESA
Amigos velhos e novos (2ª parte)
AMIGOS VELHOS E NOVOS (1ª parte)
UMA INSÓNIA ANGUSTIANTE
A ADEGA COOPERATIVA DE LAFÕES
…de como uma fortuna pode arrefecer o amor!!
• BUTAR PULHAS EM SÃO PEDRO DO SUL
A comer é que a gente se entende
O Xarope terapêutico de efeitos duvidosos
Moda é Moda
A guerra no K3
O Volfrâmio
O quarto particular
Um conto de vez em quando (2) – A ida às sortes
Um conto de vez em quando (1) – PIOR NÃO ESTOU SR. DOUTOR..!
COMO SE DIVERTIA O POVO NOS ANOS QUARENTA E CINQUENTA DO SÉCULO XX (1) – E(Ed. 655)
COMO SE DIVERTIA O POVO NOS ANOS QUARENTA E CINQUENTA DO SÉCULO XX (1) – E(Ed. 654)
São Bartolomeu da Ponte (Ed.653)
A FILARMÓNICA HARMONIA (Ed. 652)
•  A RAMPA DA CAPELA DE S. ANTÓNIO (Ed. 650)
NO CAMINHO PARA A PONTE (Ed. 651)
DA FONTE DA CERCA À FARMÁCIA DIAS (Ed. 649)
Vivências dentro das repartições no edifício da Camara Municipal (continuação) – Ed. 648
Vivências dentro do edifício da Câmara Municipal – Ed. 647
A CÂMARA MUNICIPAL – Ed. 646
“O JARDIM DA VILA” (continuação) – Ed. 645
“O JARDIM” (São Pedro do Sul nos anos cinquenta do século xx) – Ed. 644
A RUA SERPA PINTO (Continuação) – Ed. 643
A RUA SERPA PINTO (anos 50) – Ed. 642
O CLUBE DE S. PEDRO DO SUL – Ed. 641
A PRAÇA DA REPÚBLICA – Ed. 640
A ESPONTÂNEA REVOLUÇÃO FEMININA – Ed. 639

Redação Gazeta da Beira