Em Lafões a natureza está de luto

Não há muitos dias na vida em que uma região pode em uníssono dizer que o mundo desabou.

Em que tanta gente vê a luz do dia revelar a destruição de uma noite que fica gravada a fogo nos corações daqueles que viram o esforço de uma vida  reduzido a cinza, os sonhos e recordações de tantos levados com o fumo que se ergue ainda da terra negra. As florestas onde tantos de nós brincaram, namoraram ou simplesmente desfrutavam  dia a dia agora nada mais do que esqueletos calcinados.

É no meio deste cenário dantesco que encontramos os sobreviventes, as gentes da Beira já de si fustigadas pelas agruras de uma região fustigada pela crise  econômica e desertificação agora enfrentando novas perdas. Olhos que pouco se erguem do chão, muitos ainda húmidos, outros de onde se escapam lágrimas amargas. Olhos que viram demais. A revolta é palpável quando as vítimas e testemunhas recordam os factos, muitos lamentando a falta de meios, e procuram culpados para uma situação que tal desespero lhes causou.

As perdas materiais  ultrapassam de forma aterradora quaisquer incidentes anteriores, sobretudo a nível das muitas explorações agrícolas que foram dizimadas, animais, pastagens, pomares irreparavelmente destruídos. Um verdadeiro desastre ambiental e econômico que varre a região.

Lafões não foi a única região atingida pelos violentos fogos florestais do último fim de semana. Entre domingo e segunda-feira, dias 15 e 16 de Outubro, os fogos rurais  atingiram três dezenas de concelhos de seis distritos da região Centro, matando pelo menos 44 pessoas e milhares de animais e destruindo habitações, empresas e uma vasta mancha florestal. Nalgumas freguesias nem mesmo as terras agrícolas foram poupadas pelas intensidade das chamas.

Num primeiro balanço feito pela agência Lusa junto de autoridades e instituições locais, ao registo de 44 mortos e cerca de 70 feridos junta-se a destruição de mais de 800 casas, dezenas de empresas e explorações agropecuárias e uma grande área de floresta, deixando em risco milhares de postos de trabalho e o suporte económico de muitos dos concelhos afetados, além das falhas em serviços essenciais, como energia, água e comunicações.

Segundo esta mesma fonte no concelho de Vouzela oitenta a noventa por cento do território “foi arrasado” pelas chamas, que destruíram casas de primeira habitação, deixando “pelo menos 20 famílias desalojadas” e destruindo “centenas de postos de trabalho”. Foi referenciada a destruição de dependências, aviários, explorações agrícolas, serralharias, carpintarias, uma empresa de obras públicas, tratores, carros e muitos animais mortos; em Oliveira de Frades mais de 500 postos de trabalho ficaram em risco, já que o fogo danificou ou destruiu totalmente várias empresas situadas na Zona Industrial; e em Sao Pedro do Sul houve também danos em áreas florestais e construções agrícolas.

No dia 21, passado domingo, visitámos algumas das freguesias atingidas, circulámos por estadas atravessadas pelo fogo e por florestas queimadas. Vimos de tudo. As fábricas destruídas, as casas queimadas, a floresta ardida, culturas agrícolas reduzidas a cinzas. Assistimos a um funeral em Vila Nova, freguesia de Ventosa. Conversámos com as pessoas. Vimos desespero mas também uma enorme vontade de recomeçar.

Na sede da Junta de Freguesia de Ventosa conversámos com a jovem presidente da Junta, de passo apressado agradeceu a nossa visita e continuou a sua caminhada pela distribuição de quites alimentares pelas populações atingidas. Aí conversámos também com várias pessoas que ali se deslocaram, vindas de vários pontos do país, trazer alimentos e roupas e com os voluntários e as voluntárias que aí se encontravam a organizar os donativos.

 

A solidariedade é imensa.

No quartel dos Bombeiros de Vouzela imensas pessoas organizam um vasto conjunto de bens que ali chegam trazidos por várias pessoas.

Estivemos com um empresário de Lamego, Artur Oliveira, que nos disse: “Vim para aqui, aqui vou ficar três dias para ver onde e como posso ajudar. Estou disponível para deslocar dois trabalhadores e máquinas para trabalhar na reconstrução de casas, da floresta ou do que for preciso. Herdei do meu pai o sentido da solidariedade. Aqui estou para ajudar.”

Tentámos ligar a Rui Ladeira, o presidente da CM que não nos atendeu. No mesmo momento vimo-lo ao longe a acompanhar um funeral. Não insistimos na chamada, vimos que o tempo não era para conversas. Deixámos mensagem de solidariedade, de amizade e de reconhecimento do seu trabalho.

Em Paços de Vilharigues conversámos com as pessoas que brava e corajosamente corajosamente lutaram pela vida e defenderam o seu povo.

Alexandra Bica, 44 anos, professora, desabafou “lutámos sozinhos, a aldeia estava cercada de chamas, ninguém podia entrar nem sair. Valeram-nos quatro tratores a transportar água para a serra e um carro dos Sapadores Florestai. Passei a noite a regar o quintal é volta da casa, como todos os vizinhos. Pelo meio entrava em casa para espreitar o meu filho que dormia alheio ao que se passava cá fora. Pensei fugir com ele, lavá-lo à vila a casa da avó para aí o deixar em maior segurança e poder ficar mais livre para o combate às chamas. Mas a memória dos mortos de Pedrógão que morreram nas estradas fizeram-me ponderar.” À falta de esperança nos Governos e Parlamento responde com prontidão: da mesma maneira que o povo se organizou para combater o fogo e fazer o rescaldo terá que se organizar para reflorestar a serra e reconstruir o que as chamas destruíram e pensar na organização da floresta para evitar novas tragédias”

Vimos também sinais de vida no meio das cinzas. No quintal de António Giestas, um dos produtores florestais que mais tem investido na floresta autóctone e na recuperação de património rural, no meio das cinzas que restam de uma bela mata biodiversa, das maquinaria agrícolas e da vinha encontrámos um saco de verdes couves para plantar. O contraste do verde com as cinzas é o contraste entre a vida e a resignação.

Mais além uma senhora com os seus 80 anos diz-nos que comprou um sacho e apanhou castanhas, nozes e bolotas para semear na serra. “Temos que plantar tudo de novo e rapidamente!” Só planeia o futuro para além da vida quem tem inteligência além do normal. Sim, quem com 80 anos semeia castanheiros e carvalhos projecta o futuro além da vida.

“Olha o meu abeto!… Morreu… A natureza está de luto.” Dizia um produtor que nos acompanhou na viagem pelo que resta da terra queimada.

Agora é o tempo das visitas de governantes e deputados. Já por aqui andou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o deputado e líder do PSD Passos Coelho.

Para a próxima sexta feira está agendada visita de Catarina Martins do Bloco de Esquerda.

“É claro que, dado aqui, tem uma força especial. Porque às vezes, longe da vista, longe do coração. E há muita gente em Lisboa, do Portugal metropolitano urbano, como tem o outro Portugal longe de vista, de vez em quando parece que está longe do coração”, explica Marcelo.

Tem razão, Marcelo Rebelo de Sousa, quem não conhecer bem o país não é capaz de o governar. Esse tem sido um dos grandes problemas de Portugal, ser governado por gente que do seu país só conhece o “Rossio de Lisboa”.

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