António Bica

OS SERES OU REALIDADES DE QUE SE COMPÕE O UNIVERSO TENDEM A AGREGAR-SE

O universo de que somos parte (6)

Reflexões do falecido José Pereira sobre a vida e o mundo em manuscrito que me foi confiado:

Ed658_Candal_IMG_0966Os seres (partes individualizadas do que existe) são necessariamente simples (os não constituídos por agrupamento organizado de outros), e compostos (os resultantes da agregação de outros). Pelo que se observa os seres compostos (por agregação de outros de que resultam) podem dar origem a outros por agregação, e desagregar-se deixando de ser e dando origem a outros menos complexos. Os seres simples podem dar origem a outros por agregação, mas não podem por desagregação deixar de ser. E todos os seres se movem entre si por agregação e desagregação.

O conjunto de todos os seres constitui o universo. A evolução de cada ser composto em relação a si e aos outros, tendo princípio com o início da agregação dos seres que o integram, chega ao fim com a sua desagregação, processando-se por ciclos a evolução por agregação, à semelhança de espiral, sempre diferindo o ciclo seguinte do anterior, mesmo que pouco. Só os seres simples, que não terão princípio nem fim, não evoluirão em relação a si mesmos, apenas em relação aos outros agregando-se entre si e com seres compostos.

O ser humano, porque tem melhor capacidade de raciocinar em abstracto do que os outros animais, sendo por isso impelido a procurar entender o que observa, incluindo a si mesmo, à humanidade, à biosfera e ao universo, construiu a partir da sucessão desses ciclos de agregação e desagregação o conceito que designa tempo criado pela percepção de que tudo o que se observa sempre difere do que foi e do que devirá. Assim do movimento dos seres em relação aos outros seres e a si mesmos resulta a concepção de tempo construída pelos humanos.

Porque cada ser simples ou composto, enquanto parte individualizada do que existe, tende a constituir com os demais a ele semelhantes ou afins outras realidades ou seres sempre diferentes de cada um dos que o integram, tudo se vai complexificando e simultaneamente divergindo, sendo o universo o conjunto de todos os seres, portanto o mais complexo, a todos agregando organizadamente.

Assim cada ser composto é constituído pela agregação de outros seres e sempre evolui em relação a si mesmo e se move em relação aos outros, desde que se constitui até se desagregar estruturalmente e perder a identidade, deixando de ser. Os únicos seres que não sofrem desagregação são os mais simples, os seres básicos constituintes do universo.

Esses seres mais simples, no mínimo dois, sendo os componentes básicos do universo, desde sempre e para sempre existirão, podendo nunca vir a ser observados nem identificados, que a humanidade, tendo pulsão resultante da sua capacidade de raciocinar em abstracto para conhecer todo o universo que integra, embora progredindo cada vez mais nesse conhecimento, não poderá compreendê-lo inteiramente por mais largo tempo que a espécie humana subsista, necessariamente quase nada na eternidade do universo. À parte, à muito pequena parte do universo que cada humano e a humanidade são, estará vedado, por lógica matemática, o total conhecimento do infinito em tempo, extensão e complexidade que o universo é. Essa conclusão assenta em a parte não poder compreender o todo infinito que integra. O quase nada que cada humano (e toda a humanidade) é no Universo não parece poder ter essa capacidade.

Aos seres mais simples e indecomponíveis constituintes do universo caberá com propriedade a designação de átomos que se continua a dar aos seres complexos que hoje se sabe ser constituídos por um ou mais electrões e um ou mais protões, podendo incluir um ou mais neutrões. Os seres mais simples são os indecomponíveis. Todos os demais, os compostos, evoluem agregando-se e desagregando-se. E o universo de que somos parte poderá integrar-se em outra organização, constituindo outras realidades, o que só futuras observações poderão eventualmente confirmar.

Concretizando com imagem do corpo humano: cada uma dos muitos milhões de células que agregando-se entre si o constituem tem existência mais ou menos breve. Nasce e morre. Com a morte de cada célula que integra cada corpo humano desagregam-se os seus componentes, podendo participar na constituição de outros seres organizados, sejam ou não vivos, isto é capazes de integrar em si a matéria que os circunda e de se reproduzirem. Apesar da morte de células de cada corpo humano, ele continua a subsistir por mais largo tempo. O ser humano composto por esse complexo conjunto de células vive actualmente em média cerca de 70 anos. Decorrido esse tempo médio inevitavelmente se desagrega e os seus componentes tendem a integrar outros seres.

De modo semelhante a humanidade, que é o conjunto de todos os humanos vivos e que viveram, constitui outra entidade ou ser, a espécie humana. Teve ela início, segundo se estima, há centenas de milhares de anos e irá ter fim a avaliar pelo que aconteceu e continua a acontecer com incontável número de espécies de seres vivos passadas e actuais ao longo dos milhares de milhões de anos decorridos desde que o planeta Terra existe. As espécies de seres vivos existentes são muito pequena fracção das que ao longo do tempo surgiram e se extinguiram.

Não se conhece a identidade dos seres mais simples que estão na base da constituição do universo. O laboratório europeu CERN, na Suíça, cerca de Genebra, e o Fermilab, nos EUA, procuram progredir nesse caminho, embora não seja fácil avançar no conhecimento com a tecnologia hoje existente.

Dos seres mais simples do universo resultam todos os demais por agregação com sucessiva densificação e complexificação. Eles corresponderão à agregação dos ínfimos campos de força de cujas atracções e repulsões resultam todos os seres complexos do universo. Repelindo-se obstam a que outros os penetrem, como acontece com as partículas provenientes da contínua radiação solar repelidas pelo magnetismo da Terra gerado pela circulação da matéria do seu interior tornada fluida pelo aquecimento causado pela actividade dos elementos químicos radioactivos que, porque têm elevada densidade, tendem a concentrar-se no interior da Terra.

Os seres que se atraem tendem a constituir outros complexos. A percepção que se tem de que os seres mais complexos resultantes da dessas forças de atracção são sólidos, líquidos ou gasosos resultará de os campos de força dos seus componentes repelirem mais ou menos fortemente outros campos de força, assim assegurando a integridade ou individualidade de cada ser complexo. Os seres que designamos sólidos são os que correspondem a mais fortes campos de força, seguindo-se os líquidos e depois os gasosos. A percepção de peso (massa) que deles temos corresponde à atracção gravitacional recíproca com outros.

Quando os campos de força se organizam compensando-se entre si, os seres constituídos pelas forças neles agregadas não repelem outros, pelo que não são atraídos nem repelidos por eles podendo atravessá-los sem interacção (ou muito pequena), como acontece com os neutrinos.

Todos os campos de força do universo, que corresponde a toda a sua matéria, se interligarão por campo de força universal que designamos gravidade, fazendo permanentemente mover uns em relação aos outros agregando-se e desagregando-se.

Os seres menos complexos do universo constituirão a maior parte dele, formando o que chamamos espaço entre os seres mais densos observáveis. No espaço há muito pouca massa por unidade de volume. Por isso ela oferece tenuíssima resistência à passagem dos seres mais complexos e densos que se designam por sólidos, líquidos e gasosos. No universo não haverá vazio.

Como se tem referido, da progressiva agregação dos seres ou componentes mais simples e dos menos complexos do universo resultam seres cada vez mais complexos e também mais densificados. A complexificação progride à medida que a agregação dá origem a outros seres cada vez mais complexos que culminarão nos que designamos vivos. São seres com capacidade de integração de matéria a eles exterior (processo que designamos assimilação) e de replicação (que designamos reprodução), gerando para isso energia com base no que é por eles integrado a partir do meio exterior em que vivem. A complexificação culmina na Terra primeiramente na capacidade emocional (de se emocionar) e depois na de raciocinar em abstracto.

A densificação culminará no universo nos corpos chamados buracos negros, sendo assim designados por se desconhecer a sua estrutura, apenas se sabendo que existem por da força de gravidade exercida por eles sobre a matéria que os rodeia isso se poder concluir. Assim da sucessiva agregação dos componentes mais simples do universo resulta cada vez maior complexidade e maior densificação, não havendo relação proporcional entre uma e outra, isto é a densificação não é proporcional à complexificação.

NOTA: A transcrição do escrito pelo falecido José Pereira foi autorizada pela família.Redação Gazeta da Beira

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