Agricultura (Ed. 686)

Jorge Sofia

25/11/2015 (Ed. 686)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

Toupeiras

Ed686_ToupeiraHá tempos andei a pôr um pouco de horto: umas cebolas, umas couves, enfim aquilo que a estação nos permite. A terra estava bem mexida, bem estrumada, fervia de minhocas da minha compostagem. Não sou homem de andar em cima da horta todos os dias, sei que devia, mas o tempo não chega para tudo. No fim-de-semana, decidi ir ver se era preciso sachar ou mais qualquer coisa. Dei com o cebolo a morrer, levantado do chão. A terra ali estava afofada, notava-se que tinha passado qualquer coisa por baixo. Aqui e além um montículo de terra fresca ligado a um canal de terra levantada! Era evidente andara por ali toupeira! Depressa dei comigo a desejar um “fim macaco” para o diabo do bicho. Senti-me como muitos dos agricultores que me consultam, a pensar numa solução definitiva para o maldito ser. Respirei fundo, contei até dez e lembrei-me que sempre considerara a toupeira como um auxiliar do agricultor, embirrando com quem as queria matar. No entanto o estrago estava lá e ia sair-me das costas.

Muita gente confunde a acção da toupeira com a dos ratos, mas são tão diferentes como o sol é da lua. Enquanto os ratos e afins são roedores que se alimentam das plantas, a toupeira é um insectívoro que se alimenta principalmente de larvas de insectos e minhocas, que encontra quando escava as galerias. É por isso frequente em jardins, terrenos agrícolas, pastagens e zonas de floresta, que possuem características propícias para a sua actividade escavadora e que dado o seu teor em matéria orgânica, são ricos em alimento. Daqui também se tira a ilação de que andar a pôr veneno para ratos nunca afectará as toupeiras, pois o “negócio” delas é mais “chicha”. Aliás o metabolismo da toupeira é extremamente elevado, tendo de ingerir por dia quase o seu peso em bicharada. Se estiver mais de 24 horas sem comer morre, havendo cientistas que dizem que 10 a 12 horas chegam para as mandar para o paraíso das toupeiras, que no caso delas, deve ser ao lado do nosso inferno… Como vemos, os estragos, que existem, são no dizer de muitos profissionais da política, efeitos colaterais, ou seja o animal estragou mas não foi de propósito, o cebolo é que estava no seu caminho e o seu caminho era por ali porque eu tinha posto a bicharada do estrume naquele sítio…

Ed686_troviscoO meu amigo tem como eu uma consciência e não gosta de matar por matar, tanto mais que agora sabe que a bicha não é rato nem ratazana e que chama um pitéu às roscas, larvas e outros meliantes capazes de transformar uma couve num passador. Assim como poderá “desviá-la” do seu horto? O trovisco (Daphne laureola) é um remédio popular. Dizem os jardineiros que espetar raminhos do mesmo em torno da plantação afasta esse insectívoro. Desconheço como atua, mas sei que é uma planta venenosa, que em tempos permitia umas pescarias bestiais à miudagem, à conta de “entorpecer” os peixitos (Este método de pesca é agora proibido, como é lógico). As armadilhas de lata colocadas nos túneis são eficazes, mas tem de se largar o bicho longe exigindo muita arte na sua colocação e verificação regular, porque senão ele volta. O mais eficaz que usei até agora foi um aparelho que se espeta no solo e que emite uma vibração que as espanta. Estes aparelhos estão à venda em inúmeras casas agrícolas, o custo é baixo (se comparado com os pesticidas) e é fácil de aplicar (funciona a energia solar e basta espetá-lo na horta). A propósito de confusões com ratos e afins, chamo também a atenção para os musaranhos, minúsculos insectívoros, provavelmente avós de todos nós e que já cá andavam quando os dinossauros pisavam a Pedreira do Galinha. Apesar de fisicamente parecerem um pequeno camundongo, são tal como a toupeira incansáveis auxiliares do agricultor, de uma ferocidade extrema para com pragas do solo, possuindo, característica única nos mamíferos, a capacidade de segregar veneno para dominar as suas presas.

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