Agricultura (Ed. 682)

10/09/2015 (Ed. 682)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

A Broca do milho

Ed682_WP_20150903_16_36_20_ProAndava eu pelos campos com uma preocupação tremenda: O ano corre bem, não há grandes pragas nem doenças, então de que vou falar ao meu único e fiel leitor? Eis senão quando, me deparo com um campo de milho, com os colmos a quebrarem. Logo se fez luz no meu espírito e decidi falar das brocas do milho.

O milho é uma das três culturas mais importantes no mundo, a par do trigo e do arroz. Em Portugal ocupa um lugar de destaque, tendo-se verificado em 2010 uma área semeada de 95.656 hectares, correspondente a uma produção de 657.960 toneladas. Designado por “maíz” em espanhol e “maize” em inglês tem como nome científico Zea mays, sendo uma gramínea (isto é, uma erva de folha estreita como o trigo e aveia, por exemplo), sendo originário da América do Sul, foi  introduzido na Europa pelos espanhóis (pensa-se que em Sevilha) no séc. XVI. Dada a sua grande capacidade produtiva e adaptabilidade às nossas condições, depressa foi adoptado pelos agricultores portugueses, para colmatar a nossa eterna insuficiência em cereais. Da sua introdução em Portugal resultou uma das maiores revoluções agrícolas de sempre, com consequências ainda notórias na paisagem e cultura Nacional: Este cultivo, pela sua necessidade de água levou à utilização de solos de encosta (onde havia água), que tiveram de ser nivelados (os “arretos” murados em estilo de socalco, tão típicos desta região),levando a uma alteração completa da paisagem (construção de muros, transporte de terras-quantas vezes à cabeça das mulheres- desde as “natas” dos rios até ao “arreto”) e a uma alteração social (difusão do minifúndio, independência económica e alimentar, possibilidade de criação de gado, culturas resistentes, como a vinha e olival, empurradas para a bordadura). Toda uma revolução que só veio a encontrar paralelo no momento actual com a nossa integração na União Europeia e aceitação das suas regras. Mas estou a divagar! O meu leitor quer que eu fale dos achaques das plantas. Por isso se alguém estiver interessado no fenómeno de que falei, leia Orlando Ribeiro – “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”.

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Voltando à quebra dos colmos, que para o agricultor urbano, serão os caules do milho, o problema devia-se a um forte ataque de “Broca”. Com isto não quero dizer que andou ali um malandrim, de berbequim em punho a furar os colmos! As brocas são lagartas de borboletas nocturnas, das espécies Sesamia nonagrioides (broca) ou Ostrinia nubilalis (pirale)!

As plantas danificadas surgem em manchas nas searas, com as folhas murchas. As plantas quebram devido às galerias escavadas pelas larvas no interior do colmo. As maçarocas podem também ser atacadas causando a destruição quantitativa e qualitativa das produções. Isto tudo acontece porque as borboletas fazem posturas (ovos) na bainha das folhas. Destes ovos eclodem larvas, que, roendo, penetram no interior do colmo escavando uma galeria. As larvas de pírale têm 20 mm de comprimento e são acinzentadas enquanto as de Sesamia são de cor branco-rosadas e podem atingir 40 mm tendo pontuações negras ao longo do corpo. Como medidas de combate a estas pragas recomenda-se a destruição das plantas atacadas e uma aplicação de um insecticida homologado (Consulte a lista de fitofármacos autorizados em: http://www.dgav.pt/fitofarmaceuticos/guia/finalidades_guia/Insec&Fung/Culturas/milho.htm) quando o milho nos chega ao joelho (isto variará de acordo com o freguês, mas é cerca de 50 cm de altura).

As finalidades da cultura do milho há muito que ultrapassaram a alimentação humana, sendo hoje em dia, para além de base das rações de gado, um dos componentes do gasóleo. Esta nova aplicação e a importância económica do ataque destas pragas levou ao desenvolvimento de um milho geneticamente modificado (Milho Bt), que tem um gene retirado a uma bactéria – Bacillus thuringiensis –que lhe permite “desenvencilhar-se” destes inimigos sem recurso a insecticidas. Trata-se de um OGM (organismo geneticamente modificado-transgénico), sendo não só a sua utilização sujeita a enorme regulamentação e autorizações oficiais como se encontra também sujeita a enorme contestação baseada no alegado desconhecimento das consequências ambientais e dos potenciais riscos para a saúde humana.

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Redação Gazeta da Beira