A. Moniz Palme (694)

Como a errada filosofia que informa a União Europeia parece ser a mesma que fundamenta o exercício político de Deng Xiao Ping!!!

 • António Moniz Palme

Sempre tenho dito que uma verdadeira democracia teria que ser levada a cabo por partidos que representem correntes de opinião e não e apenas clubes de personalidades. Pois, as correntes de opinião são as molas dinamizadoras do progresso da comunidade, mesmo que sejam violentas e tudo arrasem, como referia Bertold Brecht em relação às correntes de água, pelo facto de serem sempre oprimidas pelas margens retrógradas que forçosamente existem. Todavia, os partidos assim não procedem, pois actualmente comportam-se como organizações blindadas, fechadas em si próprias, uma modalidade de propriedade particular de meia dúzia de fulanos, que gerem as organizações como bem lhes apetece, protegendo interesses pessoais e não admitindo a concorrência perturbadora da inovação intelectual, situação que prejudica a criação das imprescindíveis diferentes correntes de opinião.

Contudo, além destas incongruências democráticas, deparei-me com outra realidade que ainda não tinha descortinado convenientemente e que um bem elaborado estudo do Prof. Adriano Moreira me fez abrir os olhos. Na verdade, uma apreciação do querido Amigo e grande Mestre, publicada, no Boletim da Ordem dos Advogados, de Janeiro de 2014, foi para mim paradigmática quando resolveu comentar o estudo de Mathieu Duchatel, de 2011, justificativo do pensamento de Deng Xiao Ping na sua acção política. Com esse seu trabalho, acabou por construir um diferente cenário para os erros da actuação política, interna e externa, dentro da União Europeia e que tanto afligem aqueles que acreditam no sistema democrático. Na realidade, Mathieu refere uma nova vaga de actuação política, revestida do culto da impersonalidade. Os seus cultores procuram apagar a sua visibilidade do cenário político, mas sem perderem o necessário e fundamental contacto privilegiado com o “príncipe”, expondo-lhe ao ouvido as suas soluções para os problemas concretos, vestindo a imagem de tecnocratas apagados e consensuais que na penumbra mandam mas ninguém desconfia…!. O uso de uma política furtiva, longe da intervenção ou até do conhecimento do eleitorado e dos componentes dos parlamentos nacionais, passou a ser uma cómoda e oportunística prática, não desgastante do nome político de cada um. Além do mais, em princípio, ninguém conhece as sinecuras de que usufrui e os altos vencimentos que aufere.

Assim, no nosso sistema eleitoral, houve uma flagrante substituição do conhecimento das personalidades individuais partidárias, que têm o respeito e a confiança dos seus conterrâneos, pelo vago conhecimento da cinzenta identidade do respectivo partido parlamentar, que procede ao chamamento e apelo ao voto do eleitorado para a resolução dos casos concretos. Findas as eleições, quem vai exercer o mandato político, são ilustres desconhecidos, saídos das agendas partidárias, muitas vezes só conhecidas de alguns pela sua estranha natureza. Situação cómoda para os políticos individualmente falando, protegidos pelas costas largas das organizações partidárias e podendo mudar de opinião com toda a celeridade, sem dar muito nas vistas, nem pagar pelos males feitos ao país, apesar dos altos vencimentos que sempre continuam a auferir, aconteça o que acontecer.!.. Estamos perante o Culto da Impersonalidade ou Culto da Invisibilidade, ou melhor, perante a situação de que ninguém é responsável pelas decisões políticas tomadas individualmente, nas costas do eleitorado, e longe da intervenção ou conhecimento dos políticos e até dos parlamentos nacionais. Com este sistema, passa o eleitorado a votar em imagens apressadamente criadas, isto é, as reformas têm agora um culto de impersonalidade que mascara a realidade humana. Assim, os rituais das manifestações pertencem ao foro do Estado Espectáculo, à política de feira que não deixa rastos pessoais incriminadores, a não ser os desagradáveis resíduos e lixo que ninguém limpa…

Com a globalização, a situação agravou-se. Os responsáveis da União Europeia não são do conhecimento personalizado dos Europeus. Podem representar apenas vagos movimentos culturais e, o que é mais grave, seitas secretas de índole internacional que nada têm a ver com a realidade de cada país. Os actores da luta pelo poder, numa perspectiva dita democrática, organizam uma imagem que capture a adesão do vasto eleitorado, com consequências e resultados mais do que evidentes: – A falta de autenticidade da relação entre a conquista e o exercício do poder. É esse o fatal resultado do Culto da Impersonalidade.

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Redação Gazeta da Beira